quinta-feira, 21 de maio de 2020

Em discussão.

Brasil no cativeiro
Por Guilherme Fiuza - GazetadoPovo
Estátuas do Monumento das Bandeiras com máscaras de proteção em São Paulo, 12 de maio
Estátuas do Monumento das Bandeiras com máscaras de proteção em São Paulo

João Dória disse que salvou 25 mil vidas com suas medidas de confinamento no estado de São Paulo. O noticiário está divulgando esse tipo de coisa sem achar que precisa demonstrar nada. Quem disse isso? Foi a ciência, responde o governador – única autoridade do planeta que possui uma equação segura entre percentual de isolamento e mortalidade por coronavírus. Ele diz que foi a diferença entre o que o Instituto Butantã projetou sem quarentena e o número atual de óbitos.

Se o que o Imperial College de Londres projetou para a pandemia fosse levado em conta, a OMS poderia declarar que já foram poupadas milhões de vidas. Mas a diferença entre projeção e realidade não se deveu a método de contenção algum – foi apenas um estudo feito com premissas inadequadas, como admitiu seu próprio autor, o epidemiologista Neil Ferguson. Quais são as premissas cientificamente seguras para qualquer projeção envolvendo a pandemia de coronavírus?

No nível da segurança absoluta – que permita constatações com o rigor matemático como o ostentado por João Dória – nenhuma. Pelo simples fato de que o vírus é novo e a literatura sobre o seu comportamento não existe – está sendo criada agora, em tempo real. O governador de Nova York acaba de informar que os dados sobre a população infectada registrados na rede hospitalar do estado o surpreenderam completamente.

Um total de 84% dos internados com Covid-19 estavam cumprindo as medidas de confinamento determinadas pelo democrata Andrew Cuomo – ou seja, estavam em casa. Esse resultado derrubou boa parte das projeções e premissas sobre os efeitos do lockdown, e as estimativas estão tendo que ser refeitas. Mas João Dória, ao contrário do resto do mundo, não tem dúvidas.

Nós temos – muitas, mesmo que isso não esteja em voga (ter dúvidas) dependendo do que se queira afirmar. A Organização Mundial da Saúde, referência para a recomendação do lockdown, atualizou essa diretriz algumas vezes desde o início do reconhecimento da pandemia. A principal revisão foi relativa à constatação – frustrando em parte suas projeções – do surgimento de frentes significativas de contágio dentro das casas. E esse contágio não seria necessariamente provocado pelas parcelas da população que continuaram circulando. Um grande contingente provavelmente se confinou já infectado e assintomático.

Esse fator de incerteza, apresentado pela OMS, sobre a eficácia exata do confinamento já introduz uma variável desconhecida que desautoriza qualquer projeção com precisão matemática – como vimos no caso de Nova York – sobre o avanço do contágio, em qualquer região do mundo. Menos em São Paulo.

A OMS disse mais: em áreas socialmente vulneráveis – como o Brasil, incluindo São Paulo – onde pessoas precisam cavar a sua sobrevivência a cada dia, a circulação controlada (excetuando os grupos de risco e os sintomáticos) não só é aceitável, como recomendada, naturalmente com todas as medidas de prevenção de contágio e contra aglomerações. Você acha que a OMS quis dizer com isso que não tem problema permitir o avanço da epidemia nessas áreas?

Claro que não. Ela quis dizer que, embora recomende o isolamento horizontal como a medida mais conservadora (e não salvadora, como mostra a ocorrência do contágio em casa), a circulação social restrita e controlada não afronta os códigos de enfrentamento da pandemia – e estamos falando da OMS, a proponente e avalista planetária do “fique em casa”, medida que está longe de ser consensual nos meios científicos. Ou seja, não há um modo absolutamente seguro de proteção contra a pandemia e não existem certezas absolutas nessa matéria. A não ser em São Paulo.

A flexibilização do lockdown para áreas socialmente vulneráveis é o reconhecimento de que, para essas populações, o embargo às atividades extradomiciliares provocará desnutrição, doença e mortecomo ratificado pela FAO (órgão das Nações Unidas para alimentação e agricultura) e agora pela Unicef (idem para a infância). Essas mortes não entraram na equação de João Dória – quando nada, pelo fato de que essa equação não existe.

Apesar de todas as incógnitas colocadas – não por esse texto, mas pela OMS, pela medicina, pela epidemiologia, pela infectologia, enfim, pela ciência – tente usar o fator Dória de sobrevivência num exercício de hipótese. Imagine que 10% da população que o governador de São Paulo diz ter conseguido manter em casa não tivessem aderido ao confinamento. Quantas pessoas desse grupo teriam falecido?

Você não saberá, nem o Instituto Butantã, nem o Dória, nem o Nostradamus, porque dependerá de quantos eram do grupo de risco, de que faixas etárias, se estiveram em aglomerações ou se circularam responsavelmente, se tornaram-se ou não vetor de contágio assintomático para seus familiares, se uma vez infectados desenvolveram sintomas importantes ou não – e, caso tenham desenvolvido, se trataram adequadamente ou não – entre muitas outras variáveis.

Matemática de loteria não salva vidas. E se disser que salva, estará zombando delas.

Você não consegue nem saber quantas pessoas foram mortas pelo coronavírus, porque muitos morreram por outras doenças e portavam o coronavírus – mas, por uma razão obscura qualquer, essa separação estatística não chega a você. E se você pedir um rigor maior nas informações que cercam a pandemia – porque você quer conhecer direito o problema – será acusado de querer minimizar o problema. E de desprezar vidas. É o que João Dória faz todos os dias. Ele e seus companheiros de trancamento dogmático pelo Brasil afora.

Ou o Brasil toma coragem para refutar as bravatas devastadoras, ou apodrecerá no cativeiro até que os parasitas se considerem satisfeitos – isto é, nunca.

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