segunda-feira, 30 de março de 2020

Quem mata mais?

Opção safada
J.R. Guzzo  - O Estado de S.Paulo

Numa coisa dá para se ter confiança de 100% no Brasil: todo o mal que vem de fora sempre pode ser piorado assim que entra aqui. 

O coronavírus, por exemplo

Embora o seu grau de mortalidade seja baixo, comparado com assassinos desvairados como o H1N1, poucos organismos conhecidos pela biologia se espalham com tanta rapidez.

(O H1N1, que apareceu em 2009, contagiou 760 milhões de pessoas em todo o mundo e matou quase 300.000. No Brasil o bicho ainda continuava matando em 2019: foram mais 780 mortos). 

Mas nem o coronavírus, com toda a sua rapidez, consegue contagiar um país com a velocidade com que a hipocrisia, a mentira e a capacidade de fazer política suja contagiaram o Brasil.

A mãe de todas as falsificações é a repetição, no mundo político, na mídia que se pretende iluminada e nas elites ignorantes, subdesenvolvidas e medrosas que comandam boa parte do combate à epidemia, de uma opção safada

“Não se pode colocar a economia acima das vidas”. 

Parece um pensamento generoso. 

É apenas falso. 

Alguém está propondo que vidas sejam sacrificadas para abrir shopping centers? 

O que está se dizendo é que as duas tarefas, a de defender a saúde pública e a de fazer a economia funcionar, são indispensáveis e precisam obrigatoriamente ser executadas ao mesmo tempo. 

É possível – e, se não for assim, não haverá um país vivo depois do coronavírus.

Será que não havia doença nenhuma no Brasil antes do coronavírus? 

E foi preciso paralisar todo o sistema produtivo nacional para tratar delas? 

Estaríamos confinados em casa há 100 anos, se fosse assim – com as indústrias e o comércio fechados, sem transporte, sem escolas, sem comida, sem nada. 

E não é que nossas doenças sejam coisa simples, que se cura com uma colherinha de sal de frutas Eno. 

Só em 2019 as doenças cardiovasculares mataram quase 300.000 pessoas no Brasil – simplesmente 30% de todas as mortes que houve no País. 

A pneumonia matou 60.000 brasileiros, 80% deles idosos. 

Morre-se de tuberculose, uma doença da miséria, neste país; houve 70.000 casos em 2018, o último ano em que há estatísticas, com 5.000 mortos. 

A morte por coronavírus valeria mais que essas?

Não passou pela cabeça de ninguém “confinar” a população em casa por “tempo indeterminado” para combater as doenças devastadoras citadas acima. 

A economia brasileira não parou nem um minuto para se tratar da saúde pública – e não dá realmente para dizer que o SUS é ruim porque as indústrias produzem e o comércio vende. 

O que uma coisa poderia ter a ver com a outra? 

Na verdade, não dá para dizer muitas coisas que estão sendo ditas por aventureiros em busca de chances políticas, repetidas pelo síndico do prédio e encampadas, com casca e tudo, pelos meios de comunicação.

Não é verdade que o Brasil caminha para um genocídio em que podem morrer “até 2 milhões de pessoas”. 

Não é verdade que sugerir alternativas ao confinamento-isolamento total seja um “desafio” ao que pregam “todas as grandes autoridades da ciência mundial”. 

Não é verdade que a Organização Mundial da Saúde tenha autoridade científica para ser levada a sério; é apenas uma entidade política terceiro-mundista

Não é verdade que o coronavírus seja “o pior problema de saúde pública do Brasil nos últimos 30 anos”. 

Nosso pior problema de saúde dos últimos 30 anos é o SUS.

Não é esta, é claro, a opinião de quem jamais pôs os pés no SUS – mas decide o que você tem de fazer e de saber sobre a epidemia. 

Poucas coisas são tão estúpidas nesta vida quanto deixar decisões importantes a cargo de quem não vai sofrer nada com as suas consequências. 

É exatamente o que estamos fazendo neste momento.

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