domingo, 23 de fevereiro de 2020

Retroescavadeiras, uni-vos!

Retroescavadeira para quem precisa
Por Guilherme Fiuza - GazetadoPovo

– Tu viu o maluco da retroescavadeira?

– Sensacional.

– Como, sensacional? O cara é um assassino!

– Não vejo dessa forma.

– Que forma, dodói? Não tem forma nenhuma. O cara jogou em cima de pessoas uma máquina capaz de derrubar um prédio. É assassino. Ponto.

– Depende.

– Depende do quê?

– Do contexto.

– Que contexto?

– Ué, tu sabe o que levou o cara a fazer aquilo?

– Sei. Quis passar por cima de um motim de policiais em greve.

– Mais ou menos.

– Tá. Policiais em greve ilegal.

– É. Mas não tô falando disso, não.

– Tá falando de quê?

– Do Mal.

– Ah, maldade por maldade...

– Não tô falando de qualquer maldade. Tô falando do Mal. Do Mal Absoluto.

– Existe isso?

– Não só existe como aproveitou uma brecha e encarnou aqui no Brasil.

– Tem certeza?

– Infelizmente tenho. Aí você raciocina: e se aquele homem dirigindo a retroescavadeira no Ceará estivesse combatendo o Mal Absoluto? Você ainda o chamaria de assassino?

– Você tá me confundindo.

– Não tem confusão nenhuma. Tá tudo muito claro.

– Como você sabe que o Mal Absoluto tava diante daquela retroescavadeira?

– Amigo, desculpe: você não vê televisão? Não lê jornal?

– Claro que sim.

– Então? Não notou que tá tudo interligado?

– Tudo o quê?

– Tudo. Óleo na praia, Amazônia acabando, democracia em chamas, aquecimento global...

– Espera aí, acho que a ligação tá ruim: você falou aquecimento global?

– Exato. Você ouviu muito bem.

– Mas isso também tem a ver com...

– Claro! Não te falei que é o Mal Absoluto?

– Falou.

– Então? Absoluto quer dizer tudo. Geral. Enfim, a porra toda.

– Ah, tá.

– E se você não perceber que os milicianos do clima estão conectados com os milicianos do Ceará, você nunca vai entender a ação libertadora daquela retroescavadeira.

– Caramba, agora entendi tudo.

– Putz... Até que enfim.

– Então aquilo não era uma retroescavadeira pilotada por um assassino avançando para esmagar seres humanos. Era um ato de resistência democrática contra o fascismo!

– Exatamente! E contra o bolsonarismo.

– Isso. Dá no mesmo, né?

– Ufa, até que enfim a sua ficha caiu.

– Aaaaaiiiiiiii!!!!!!!! Socorro!!!

– O que houve?!

– Caiu uma mosca na minha sopa!

– Que susto... Achei que você estivesse enfartando.

– Que ódio! Segunda vez que isso me acontece em menos de um ano. Nunca tinha acontecido antes.

– O quê?! Desde que o Bolsonaro assumiu já caíram duas moscas na sua sopa?!

– Meu Deus! Não tinha me tocado disso. Obrigado, mas vou ter que desligar. Preciso avisar à imprensa.

– Boa sorte, amigo. Aconteça o que acontecer, não recue. O Bem está do nosso lado.

– Tá. Se for preciso, onde eu arranjo uma retroescavadeira?

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