segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Mané Emídio revirando as lembranças de todos nós...

E EU JURAVA QUE NÃO IRIA MAIS PECAR

Joaquim Pinto, o meu pai, era um católico fervoroso, que acreditava nas coisas lá de cima (e nas lá debaixo também). Ele foi o primeiro homem que eu vi rezar, antes mesmo de padre Eurico, o nosso vigário de Alexandria. Papai rezava antes das refeições (e eu o acompanhava, mesmo flertando com um pedaço de galinha, num prato bem ali à minha frente), de dormir e quando passava por um cemitério, que fosse dia ou noite, ele descia do cavalo para rezar para as Almas do Purgatório, àquelas que estão com um pé no céu, e, portanto, já obrando pequenos milagres.

Naquele tempo toda família “importante” teria que ter um médico, um advogado, ou mesmo um padre (hoje é um político corrupto ou um juiz vendedor de sentenças), e, não sei por que, papai me escolheu para ser o padre da família (mas logo eu, que só falava em priquito e, que, por qualquer coisinha de nada, eu soltava um nome feio do tamanho do mundo?) E eu teria sido mesmo padre (só não sei se prestava), se o meu pai não tivesse partido tão cedo, me deixando uma saudade tão grande, que ainda não coube no meu peito.

Mamãe, por outro lado, era uma católica que resolvia seus problemas com os santos de casa mesmo, sem ser preciso ir até à Igreja. Era o que se chamava de uma mulher moderna. Mas mesmo com essa modernidade toda, ela nunca me falou sobre sexo ― esse tabu que ainda hoje se faz presente em muitas famílias sertanejas ― e tudo que aprendi foi com os amigos de rua, principalmente com Dedé de Messias, que era bem mais velho do que eu. Certo dia ele me pediu (e o pedido dele tinha o efeito de ordem) para eu exibir a mão direita fechada, em formato de punho, e quando viu uma barroquinha entre o meu dedo polegar e o indicador, ele disse, morrendo de rir:

― Poxa vida, você nessa idade e já é um grande punheteiro. Todo punheteiro tem essa barroquinha na mão, e a sua é muito grande.

Eu tinha 10 anos e nem imaginava o que era isso, na verdade eu pensava que a rola servia apenas para mijar, já que os filhos vinham numa cegonha. Mas eu desconfiava que esse negócio de punheta era alguma coisa imoral, de gente grande. Mas como eu queria ser grande, eu não disse nada, nem que sim nem que não, apenas esbocei um riso amarelo, dando a impressão que já era craque nesse assunto. Dedé, meu irmão um ano mais novo do que eu, e, portanto, mais besta, foi quem perguntou o que era punheta no jogo do bicho.

É você ficar esfolando a piroca até gozar ― respondeu Dedé de Messias.
Gozar, como assim? ― O meu irmão perguntou, na sua mais santa inocência.
É assim: você bota espuma de sabonete na cabeça do “cabeçote” e fica movimentando pra lá e pra cá, até você revirar os olhos e escurecer a vista. Isto é o gozo ― explicou Dedé de Messias, o nosso primeiro instrutor sexual.

Naquele mesmo dia, quando fui tomar banho, a primeira coisa que fiz, antes mesmo de me molhar, foi arregaçar a minha fimose e encher a cabecinha de minha piroca de sabonete e comecei a seguir as instruções do nosso “professor”. Em pouco tempo senti uma ardência na uretra que só faltei gritar de dor. A cabecinha de minha trocha estava mais vermelha do que pimenta do reino. Aí não aguentei e tive que parar. Depois, quando fui urinar, senti como se milhões de fragmentos de vidros viessem rasgando o meu canal peniano. “Isso só pode ser castigo, por eu ter cometido um pecado tão grande como esse”, eu pensei.

Mas eu queria fazer aquela coisa, não pelo prazer, que eu nem sabia o que era aquilo, mas para me sentir homem e poder me vangloriar com a turma, dizendo que eu também sabia o que era gozar. No dia seguinte fiz tudo do mesmo jeito e mais uma vez a ardência me fez parar, antes que o tal gozo chegasse. E mais uma vez a cabeça de minha piroca ficou vermelha, parecendo um galo de campina. Então eu desisti, não tinha rola para brincadeira e não iria mais me torturar com aquilo para me sentir grande ― eu não entendia como alguém poderia encontrar prazer naquilo ― até que um dia Nena de Aluízio disse que cuspe fazia o mesmo efeito do sabonete, com a vantagem de não ter contraindicação e não provocar ardência. Mas foi Waldery de Dôdora, outro “professor” dessa arte sexual, com técnicas bem mais sofisticadas, quem me mostrou o mapa da mina. Ele me disse que se agente pensasse numa mulher nessas horas, o gozo logo viria, e viria impetuoso, com escurecimento de vista e tudo mais.
Foi com a utilização desses métodos “avançados” que comecei a progredir nessa matéria e logo integrei a turma de meninos que toda tarde se masturbava atrás do rio. Era eu, Marizinho, Dedé, Maurício, Nego Assis, Waldery, Ivanildo, Severino Olímpio, Nena de Aluízio, Nego Holanda, ficávamos todos debaixo de uma moita se masturbando. “E aí, já gozou? Saiu alguma coisa?” Depois a gente ficava espremendo o “pinto”, atrás de expelir alguma gotinha de esperma, que era para mostrar que já éramos grandes. A gente espremia tanto que o bichinho botava meio palmo de língua pra fora. Mas eu sabia que isso era pecado e toda vez que ia me confessar era um deus-nos-acuda, dizendo que nunca mais ofenderia Deus com essas obscenidades. E sempre quando eu ficava com a garganta inflamada, dos constantes banhos de rio, ou mesmo doente de catapora, ou quando aparecia uma espinha grande no meu rosto (e como aparecia...), eu tinha certeza que era uma punição de Deus, que via tudo. Até o meu anjo da guarda me olhava desconfiado e só me acompanhava porque era obrigado, pois ele também se sentia envergonhado das coisas que eu andava fazendo.

Antônio Mariz, que era o prefeito na época, mandou arrancar todos os pés de fícus da cidade, devido a uma peste de lacerdinha (um mosquitinho preto que quando entrava nos olhos, a gente só faltava morrer de coçar) e em seu lugar plantou algaroba que, segundo Paloca, nunca deu nem sombra e nem encosto e, pra completar, era o terror dos pneus de nossas bicicletas. Mas Mariz poupou o pé de fícus da casa de padre João, que era o maior da cidade e onde a meninada vez ou outra subia pra bater punheta lá de cima, que eu via a hora um despencar no chão. Esse pecado eu nunca confessei a padre João, que era outro que adorava um pecadinho.

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