sábado, 16 de fevereiro de 2019

Mané Emídio quase que aderia...

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ESTRADAS DE CANINDÉ

Depois de quase 60 anos, ontem voltei ao Canindé. A vez que estive lá ainda foi com os meus país, quando fomos pagar promessa a São Francisco, o santo de confiança de papai. Eu tinha 5 ou 6 anos, mas aquelas lembranças ainda povoam a minha mente: a nossa pensão, que ficava em frente à praça da Matriz, onde eu me sentava em uma das janelas e ficava contemplando a cúpula geodésica da parte central do telhado da igreja, tão reluzente que eu pensava ser de prata. É bom lembrar que naquele tempo as pensões não tinham nenhuma estrutura e os hospedes tinham que levar tudo: sabonete, toalha, lençol e, principalmente, redes. Afora essa pensão, que tinha desaparecido e em seu lugar nascera uma moderna agência do Banco do Brasil, como também a praça e algumas ruelas em volta da igreja, hoje inundadas por lojinhas e barracas cheias de souvenirs desse santo milagreiro, o resto continuava do mesmo jeito, inclusive o próprio santo, que não envelhecera nada.
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Não me lembrava mais do interior do templo (eu acho que não conhecia essa parte da igreja. Tenho a impressão que por eu ser muito pequeno, os meus pais me deixaram na pensão com Nenem), com seus três altares. Um principal ao centro e outros dois, um de cada lado, como se formassem uma cruz. Não sei para que tantos altares, se só pode celebrar uma missa de cada vez. Ou estou errado e ali se celebra várias missas ao mesmo tempo?

Depois fui até à Sala dos Milagres (daqui eu me lembrava), que continuava cheia de pedaços de madeira em formato de membros humanos: eram centenas de braços, de pernas, de cabeças, de pés, de mãos. Tinha também várias casinhas de madeira, tudo em miniatura, parecendo brinquedos. 
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Ao lado da Sala dos Milagres havia um anexo em forma de corredor, onde de um lado existia vários quartinhos contíguos (mais de dez), um colado ao outro, e do outro lado, encostado na parede, tinha uma extensa bancada em madeira. Nas portas desses quartinhos tinha uma tabuleta com os nomes: Frei Joãozinho, Frei José Hering, Frei Jurandir, Frei Jonaldo, Frei Osmar, Frei Marconi. A metade superior dessas portas era em vidro, que era para se poder ver quem estava dentro. “Isso deve ser uma Central de Conselhos, e, se fosse, seria pago?”, eu pensei. Como não era época de romaria e já passava do meio-dia, todos os quartinhos estavam vazios, sem ninguém. Só o último, o de Frei Marconi, tinha gente. Ele atendia apenas uma pessoa de cada vez, o restante aguardava sentado nos bancos. No exato momento em que eu ia passando, o Frei que estava atendendo uma senhora abre um dos sorrisos mais cativantes que eu já vi. Foi um sorriso de tanta bondade que me fez esquecer de tudo o que eu estava pensando, provavelmente pensamentos críticos, censurando a igreja, achando que a mesma só fazia as coisas por dinheiro. E por um instante eu fiquei ali parado, sem pensar em nada. Foi como se a minha mente tivesse sido deletada por algum controle remoto misterioso. E, feito uma barata tonta, sem saber para onde ir, me dirigi até aquele grupo de fiéis, que aguardava sentado nos bancos de madeira.
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―Boa tarde, vocês vão se confessar? ―Eu perguntei.

Sim! ―Respondeu uma senhora, exibindo um franco sorriso de felicidade.

E é pago? ― Eu indaguei, já inteiramente desacostumado com os rituais católicos.

Não, senhor! É tudo de graça ―ela respondeu morrendo de ri, mas dessa vez foi da minha pergunta idiota.

―Bem, já que é de graça eu também vou esperar ―e me sentei, ficando o último da fila.

As pessoas que saiam do confessionário de Frei Marconi saiam com semblante de felicidade, mas cabisbaixas, como se para ganharem a absolvição, tivessem ainda que pagar pequenas penitências. E todas iam diretas para a nave principal da igreja, felizes como se fossem para o céu. Na minha frente tinha uma senhora, e na frente desta tinha um senhor, de modo que pensei se tratar de um casal. Acontece que quando chegou a vez desse senhor ser atendido pelo Frei, a mulher que estava atrás dele se antecipou, tomando a vez do pobre. “Tem nada não, quem esperou até agora não custa nada esperar mais um pouquinho”, ele disse calmamente, só para mim. “Essa já vai pecando”, eu pensei. Essa mulher foi a que mais demorou com o Frei e quando saiu não veio rindo, pelo contrário, veio meia sem-jeito, como se quisesse esconder alguma condenação. E ela também não foi para o salão principal da igreja. Em vez disso, ela foi para um lugar que ninguém tinha ido antes, onde tinha que subir vários degraus. “Essa com certeza tinha mais pecados que os demais”, eu imaginei.
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Frei Marconi
Finalmente chegou a minha vez. Eu cumprimentei o Frei um pouco encabulado, como se pisasse em terreno estranho.

Boa, tarde! ―Eu disse, esboçando um sorriso amarelo.

Boa tarde, meu filho! Vamos sentar ―falou Frei Marconi, sempre com seu sorriso largo.

Assim que nos sentamos, ele falou:

Meu filho, conte os seus pecados!

Eu não tenho pecados, Frei ―eu disse, e fui logo me antecipando ―porque pecado é praticar o mal, é roubar, estuprar, matar. Eu não faço nada disso, eu só pratico o bem. O único pecado que tenho é não ter muita fé nas “coisas” lá de cima. Se é que isso seja pecado. E continuei: se o meu pai fosse vivo (eu o perdi com apenas 9 anos de idade), hoje eu seria padre, talvez até Frei, como o senhor. Não sei por que entre os três filhos homens (nesse tempo Joaquim ainda não era nascido), ele escolheu exatamente a mim, que sequer era o mais velho. E nem o mais novo. Eu era o filho do meio e, portanto, o mais sem graça de todos. O mais velho geralmente é o mais inteligente, pelo menos para os pais. O mais novo é o mais engraçado, e o do meio não passa de um incógnito, que nem fede e nem cheira. E eu era esse filho do meio, quase uma alma vagando pela casa. Mas eu tinha sido o escolhido pelo meu pai para ser o padre da família (ele me mostrava todo orgulhoso para os amigos, dizendo que eu não precisava sequer fazer a coroinha na cabeça, pois já a tinha de nascença. E me mandava ficar de costas, para que os amigos vissem o meu enorme redemoinho na cabeça). Seria eu, desde pequeno, um predestinado, marcado para provações?, pois já naquele tempo eu desconfiava que a vida monástica era um osso duro de roer, apesar do prestígio que os padres desfrutavam. Não poder casar e não ter filhos, para eu era a pior coisa que poderia acontecer a um homem. “Mas padre não deixa de ser homem por isso não”, dizia o meu pai, tentando me convencer a aceitar a minha Via Crucis.

Frei Marconi me ouvia sem nunca apagar o seu sorriso largo e, quando finalmente eu me calei, ele começou a falar:

Você está certo, filho. Realmente pecado é fazer o mal, é invejar e querer destruir as pessoas. Deus sabe o filho que tem. Ele sabe de tudo, de mim, de você e de todos nós. Nada fica coberto para Ele. O seu pai tinha uma missão nobre para você, que foi desviada e, talvez por isso, você se perdeu no caminho. Pela sua conversa percebi que você gosta de ler, talvez até de escrever. Portanto, siga em frente, quem se não foram traçados novos planos para você e você não vai narrar uma bela historia, uma que ninguém narrou ainda? A vida é assim mesmo, meu filho. Nada é definitivo. Quando tudo parece mal é sinal que algo maravilhoso está por vir. Lembre-se que você ainda está no palco e que ainda é protagonista. Agora vá e desempenhe bem o seu papel. Faça tudo como se fosse a sua última cena. Mas lembre-se de uma coisa: Ele está na plateia, torcendo por você.

Despedi-me de Frei Marconi emocionado e com os olhos marejando, quase transbordando, mas antes de me retirar, ele me pediu só mais um momento. Então ele rodeou o seu pequeno birô e veio até a mim e, suavemente, pôs a sua pesada mão sobre a minha cabeça e disse: Deus esteja contigo! Eu sai do confessionário de Frei Marconi quase levitando, mais emocionado que quando me confessava com Frei Damião de Bozano, no tempo em que eu era criança e acreditava piamente nas coisas do Pai.

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