terça-feira, 13 de março de 2018

A lembrança 'chega dói'...

No tempo das azeitonas cajazeirenses...
Por Dirceu Galvão

Meu sogro, Manoel Lins, mandou por Márcia e com gracejo: "- Leva pra Dirceu que ele gosta de uva de pobre...".

Quando vi o presente (na imagem, acima), foi como se me afundasse em lembranças das mais relevantes da minha feliz juventude, em Cajazeiras.

A impressão que eu tinha - e confirmada quase que totalmente - era no sentido de que todos nós, eu e amigos, tínhamos poucas opções de brincadeiras da criancice: jogar bola (em primeiríssimo lugar!), tomar banho e nadar no açude grande, pescar piaba, caçar com baladeira (as lagartixas sofriam...), correr atrás de anu-preto (ele cansava no voo...), alugar bicicleta, subir o morro do Cristo Rei. Dia sim, dia não - e vice e versa - nós corríamos nos trilhos da liberdade infantil. 

Só que falei em atividades cansativas! Neste mundo de suor e esforço, havia compensações. E elas, todas, diziam respeito ao que conseguíamos pegar e comer nos muros alheios.

Nos tempos da Rua Sebastião Bandeira de Melo - mais conhecida como a rua dos 10 chalés - meus esforços de criança eram recompensados com a recomposição calórica no muro da casa de Seu Luis Mouco, na esquina e no começo da ladeira que orna a via. Ali, podíamos saborear, principalmente, deliciosas goiabas, a que se seguiam homéricas broncas do dono do quintal naqueles meninos 'maleducados', que não obedeciam suas restrições de ingresso no paraíso fruteiro.

Depois, quando passamos a morar na Rua Epifânio Sobreira, aumentaram as opções de brincadeiras, amizades e recompensas. Agora, o Açude Grande estava mais perto; o estádio Higino Pires mais à mão; a rua não tinha ladeira (o que abriu um grande espaço às peladas no calçamento) e as fruteiras se multiplicaram.
Havia dois lugares especiais: a casa de Seu Zé Palmeira, no beiço do Açude Grande, no fim da Rua Barão do Rio Branco. Ali, podíamos desfrutar de - se a memória não me engana - mangas, pinhas, siriguela, cajá, 'imbú'. E com um adendo: não havia necessidade de pular o muro da propriedade: a minha amizade com os meninos de Seu Zé Palmeira e Dona Letícia, especialmente, com Joab, Juscelino, Sara e Cristina, era certeza do ingresso. 

Nos fundos do pomar de Zé Palmeira, havia o Colégio Diocesano. Ali, sim, tínhamos que acessar pelo muro alto e descer n'outro paraíso: os pés de azeitonas sertanejas, que n'outros lugares chamam de oliveira! Era uma festa!

E as minhas lembranças me remetem ao tempo de então. Na volta da pelada, nos arredores do Higino Pires, e antes do banho de açude, era a hora de pegar as azeitonas. Como de corrente feitio, vocês sabem que menino é bicho sem limites. Era um tempão debaixo ou 'amucegado' no pé de azeitona. O seu doce e gosto não nos aconselhavam parar de consumir. Era tempo de parar - após umas 100 azeitonas - quando começava a dar um 'travo' na garganta e deixava de ser agradável.

Em casa, minha mãe, Dona Marina, bem sabia o que tinha acontecido: os dentes denunciavam o exagero na azeitona. Ficava tudo cor de anil. E amanhã viria um outro dia para curtirmos a nossa alegria de criança.

Saudade de tudo: das pessoas, dos lugares de nossa Cajazeiras, das frutas, das brincadeiras. 

Ô Carrazêra boa!

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