domingo, 6 de agosto de 2017

Sem uma punição séria desses menores (nos casos dos crimes mais graves), os adultos vão deitar e rolar...

A exemplo do tráfico, quadrilha de roubo de carga usa adolescentes para livrar adultos no Rio
Correios está elaborando plano logístico de segurança diferenciado para o estado
ELENILCE BOTTARI - OGlobo
Entrega de risco. O caminhão dos Correios que foi assaltado em Benfica e levado para o Morro São João, em Benfica, onde há uma UPP: só no primeiro semestre deste ano, foram registrados 5.179 roubos de carga no Estado do Rio

RIO - Início da madrugada da última segunda-feira, Rua Embaú, próximo a um dos acessos para o Morro da Pedreira, na Pavuna. Em um dos lugares mais perigosos do Rio, policiais rodoviários federais conseguem prender parte de uma quadrilha e recuperar uma carga de laticínios, avaliada em R$ 100 mil, que acabara de ser roubada na Rodovia Presidente Dutra. Depois de uma troca de tiros, os dois assaltantes que estavam no caminhão se rendem: são dois adolescentes, um de 13 e outro de 14 anos.

Dois dias depois, em outra operação policial, mais três jovens foram presos pelo mesmo crime. Dados da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas e da Promotoria da Infância e da Juventude revelam que hoje a participação de menores em roubos de cargas faz parte da estratégia adotada pelo tráfico, que tem nessas ações criminosas uma de suas principais fontes de renda. De janeiro a junho deste ano, ocorreram 5.179 roubos de carga no Estado do Rio.

Só nesta sexta-feira, foram registrados sete roubos, segundo o Sindicato das Empresas do Transporte Rodoviário de Cargas e Logística (Sindicarga), um número bem abaixo da média. Além desses, um caminhão dos Correios foi atacado no início da manhã em Benfica. Momentos depois, uma equipe da TV Globo flagrou, de helicóptero, cenas impressionantes de bandidos saqueando caixas de Sedex no Morro de São João, no Engenho Novo, comunidade onde há uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Horas antes, na noite de quinta-feira, um caminhoneiro foi ferido a facadas em uma tentativa de roubo de carga, ocorrida na Via Dutra, na altura de Seropédica.

JOVEM DE 13 ANOS FOI DETIDO TRÊS VEZES
A rotina de assaltos revela que as quadrilhas agem quase sempre da mesma forma. Bandidos armados com fuzis e em veículos roubados obrigam o motorista a parar na estrada. Quem sobe no caminhão para acompanhar o refém até um lugar seguro para a retirada da carga é, na maioria das vezes, um adolescente. Assim, caso seja interceptado pela polícia, o bando foge levando as armas pesadas, deixando para trás o jovem infrator que, na pior das hipóteses, passará dois ou três meses num abrigo até voltar para as ruas.

No caso de A., de 13 anos, e de seu parceiro, B. de 14, a situação foi ainda mais grave. Não foi a primeira vez que eles foram flagrados com cargas roubadas. Apesar de tão jovem, foi a terceira passagem de A. pela polícia. A primeira foi em dezembro do ano passado, quando ele foi autuado por roubo armado e participação em quadrilha. Entregue à avó, ganhou a liberdade assistida, medida socioeducativa em que o jovem tem que comparecer periodicamente a uma instituição de ressocialização da prefeitura. Meses depois, em 25 de junho passado, A. foi novamente apreendido e autuado por ato análogo ao crime de receptação. Mais uma vez, foi entregue à família, e uma audiência, marcada para o próximo dia 8, quando a Justiça decidiria que medida ele deveria cumprir. Mas A. voltou a ser flagrado.

Em depoimento à promotoria, o adolescente contou que perdera uma pistola do tráfico quando foi apreendido no seu último roubo e que estava sendo pressionado pelo chefe da quadrilha para pagar a dívida. História parecida com a seu colega, B.. Ele havia sido apreendido no último dia 6 de junho com uma moto roubada, que pertencia ao "dono do morro". Posto em liberdade assistida e pressionado pelo mesmo traficante, B. se juntou a A. para a nova "empreitada".

Infelizmente, é cada vez maior a participação de jovens em roubos de cargas e no tráfico. E o modus operandi é sempre o mesmo. A quadrilha faz o bote, mas, na hora de levar o caminhão, quem vai no veículo é um menor com um simulacro (arma falsa). Os outros seguem em outros carros. Assim, se a polícia chegar, eles não perdem nem homens, nem as armas. A pena para um adulto preso com armas num roubo deste é alta. Já para o adolescente, ainda mais se for detido com simulacro, a medida será branda. Provavelmente, não pegará nem regime fechado. Mas, mesmo que isto aconteça, estará muito rapidamente na rua — explicou Flávia Ferrer, que atua em processos envolvendo jovens em segunda instância.

Na opinião da procuradora, é equivocada a ideia que o jovem fica em situação de risco quando mantido em regime fechado em um abrigo, que normalmente está superlotado.

É claro que isso não é o ideal, mas ainda assim é menos arriscado do que deixá-lo em liberdade para ele voltar para a mesma situação de alto risco em que estava quando foi apreendido — disse.

Para o delegado Marcelo Martins, diretor do Departamento Geral de Polícia Especializada, a legislação branda vem agravando ainda mais a violência e recrudescendo a criminalidade:

A sociedade tem que reavaliar essa legislação que impede os juízes de aplicarem medidas mais efetivas, que, inclusive, poderiam desestimular as quadrilhas a usarem adolescentes e crianças na prática de crimes.

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