quinta-feira, 10 de agosto de 2017

É hoje! 'Vámo', Fogão!

Jair Ventura diz que quer títulos no Botafogo e defende forma de jogar do time
Carlos Eduardo Mansur e Augusto Decker - Extra
Jair Ventura, prestes a completar um ano à frente do Botafogo 

Jair Ventura está satisfeito com o que já conquistou em quase um ano de Botafogo, mas quer mais. O comandante alvinegro avisa que deseja coroar a trajetória do elenco com um título este ano. O treinador também responde a uma das poucas críticas frequentes ao seu trabalho até aqui: a formação com três atacantes juntos em campo.

Você aprendeu em casa que o futebol representa pressão. Por que seguiu o caminho?
Paixão. Já nasci pressionado. Sou filho de um tricampeão do mundo. Perguntavam: “Vai jogar igual ao pai?”. Eu era muito novo e isso me afastou do futebol. Meu pai me deixou à vontade. Eu dizia: “Vou ser piloto de F1. Vou ser ourives como minha mãe”. Mas a paixão foi me chamando. Quando vi, estava no mirim do São Cristóvão. Com 16 anos, saí de casa, fiz teste na Holanda e não fiquei. Sofri. Meu pai sempre me deu do bom e do melhor. Mas eu queria buscar o meu. Agradeço por ser filho de um campeão. Mas por que ficar à sombra do meu pai?

A vida de técnico vale a pena?
Vale. Você não pode é levar a crítica para o pessoal. A crítica não é para mim, é para o cargo que exerço. O dia a dia, a gestão de pessoas, gosto disso. Ver o Vitinho, que treinei no sub-20, ser vendido por milhões; o Sassá com um grande contrato no Cruzeiro; uma jogada treinada resultar em gol... Eu era interino na Série B (em 2015) e no meu primeiro jogo um volante se machucou. Pedi ao Luís Ricardo para fazer a função. Ele fez a jogada do gol do Lulinha e apontou o dedo: “Foi você”.

Então, cada vez que um contra-ataque do Botafogo começar na esquerda e terminar em gol pela direita deveriam apontar pra você?
Tá demais isso, né? O Pimpão falou pra mim: “Vão marcar a jogada”. Mas é difícil, é característica. Como a gente joga num losango, o Pimpão fica um pouquinho mais pela esquerda. O homem da saída pela direita é o Bruno Silva, um volante com mais característica ofensiva, de pisar na área. Pimpão tem velocidade e o Bruno tem infiltração.

A prioridade agora são as competições de mata-mata? Vai poupar no Brasileiro?
Sim, não tem jeito. E deixando bem claro que nunca vamos abdicar do Brasileiro — o Palmeiras, por exemplo, foi campeão da Copa do Brasil e caiu. Nós não queremos isso.

A ideia também é administrar a posição de classificação para a Libertadores?
Nosso orçamento não é para isso. Mas vamos brigar de qualquer forma. Vamos ver onde chegamos. Para alguns, não chegaríamos nem aqui. Agora já estamos comemorando um ano de “sorte” (risos). Eu brinco com um amigo que dizia que estávamos com sorte: “Que sorte é essa que dura 11 meses?”(risos).

Você concorda que, na essência, este Botafogo fica mais confortável num jogo reativo do que com posse de bola?
É característica do time. Temos um poder de marcação forte, de retomada de bola.

A torcida já comprou a ideia do Botafogo como um time que joga no contra-ataque?
Eles compraram porque vocês (jornalistas) falam. O que eu escuto nas ruas é exatamente o que vocês falam.

Contra o Fluminense, por exemplo, o Botafogo teve posse, domínio, controle com a bola e não sem ela...
Em muitos dos jogos em que tivemos mais posse, perdemos. Nenhum treinador do mundo leva o time para trás, para só defender. O adversário cresce. Contra o Avaí, levamos o gol e tivemos que mudar cedo por causa da lesão do Montillo. Aí você pensa: coloco mais um atacante ou um volante? Você coloca um atacante, porque tem quase 80% de posse de bola e 16 finalizações. Perdi o jogo por causa dos três atacantes? Não. Já vi técnico execrado porque estava ganhando e tirou jogador da frente para colocar volante. Perdeu e foi chamado de retranqueiro. E teve momentos em que acreditei que a melhor defesa era o ataque e disseram que perdi porque fui audacioso. As vitórias contra Colo Colo, Olimpia e Estudiantes foram no 4-2-3-1. Talvez perca em pegada, mas criamos mais do que em outros jogos. E contra o Barcelona tomamos gol em arremesso lateral.

Desde que você assumiu o Botafogo, mudou muito a forma como te tratam na rua?
Total. No momento é para o bem porque estamos bem. Eu tento não mudar minha rotina, mas acabo precisando evitar algumas coisas. Quando perdemos um jogo, sempre vou escutar alguma coisa no mercado. E uma coisa triste que eu vejo no ser humano é que hoje em dia parece que ninguém quer te dar parabéns. Você tem a obrigação de vencer e é execrado quando perde. Não existe o parabéns. A intolerância sobe. Ficou claro para mim que quando você ganha as pessoas viram a cara e, quando perde, é apedrejado. Infelizmente.

Onde você busca modelos para os seus treinos?
Eu trabalhei com muitos treinadores. Às vezes, no cinema, eu penso num treino e anoto no celular. Falo para a esposa não se preocupar.

E o filme?
Depois eu recupero (risos).

Como você gostaria de terminar este ano?
Quero um título. Deixar esse legado. A arrancada do ano passado rumo à Libertadores vale mais do que um Estadual, mas eu quero ganhar mais. O Botafogo tem mais de cem anos, e a melhor campanha consecutiva nesses dois mata-matas foi em 1996, quando caiu nas oitavas em ambas. Então já entramos para a história do clube. Mas não estou satisfeito.

Imagina-se campeão da Libertadores?
Trabalho para isso.

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