segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Escudo, pai de Neymar guia carreira e fortuna do craque do PSG
ALEX SABINO, ENVIADO ESPECIAL A PARIS - Folha de São Paulo

Quinta-feira (3) foi a última noite de Neymar em Barcelona. Um grupo de torcedores se concentrou em frente à casa do atacante. Não queriam protestar. O pedido era para que o atacante recusasse a proposta do Paris Saint-Germain, com quem havia assinado contrato horas antes. Desejavam conversar com o brasileiro. Pedir explicações.

Neymar, que comia sushi com os "parças", não atendeu ao pedido. Seu pai, sim. Foi lá e apelou para que os presentes entendessem a decisão do filho. Que era melhor mudar de ares porque os últimos anos haviam sido recheados de problemas fora de campo. Era uma alusão ao processo na Espanha por sonegação de impostos.

Neymar da Silva Santos é a linha de frente de Neymar da Silva Santos Júnior. O homem que não tem medo de ir para o combate. O que lhe rende amizades de fé, a adoração do filho e inimigos.

Ex-ponta-direita de times modestos como União Mogi (interior de São Paulo) e Operário-MT, ele realizou todos os sonhos de fama e riqueza graças ao primogênito. Nos eventos em que o agora atacante do Paris Saint-Germain é o astro, seu pai também é cortejado por poderosos e fãs, que pedem selfies e autógrafos, o que ele jamais nega.

O Neymar mais velho criou uma armadura em torno do filho e desempenha o papel de escudo. Ex-funcionário da CET (Companhia de Engenharia e Tráfego) de Santos, partia para a briga com torcedores em jogos das categorias de base quando alguém ousava tecer um comentário maldoso sobre sua cria. Desde cedo, Neymar Júnior era apontado como fenômeno. Um imã para a maledicência dos rivais quando as coisas não iam muito bem. O pai jamais suportou isso.

"Acho curioso porque mesmo nas brincadeiras da empresa, quando Neymar filho jogava junto com a gente, o pai apertava o menino. Cobrava a sério, dizia para não ficar encurralado nas pontas do campo", afirma Manoel Messias Gomes Filho, que trabalhava na oficina de caminhões da CET enquanto Neymar pai ficava na de carros.

Continua o mesmo. A primeira coisa que Neymar Júnior faz quando entra no vestiário após o fim de uma partida é checar as mensagens do pai. São comentários sobre o desempenho, reclamações, dicas e alertas.

Ele pode ser um grande incentivador da carreira do filho, mas também é seu maior crítico.

É o mesmo Neymar pai que em 2010 foi ao programa "Esporte por Esporte", da TV Santa Cecília, emissora regional da Baixada Santista, para rebater as críticas que o comentarista Flavio Antunes, ex-lateral do Santos, fazia ao estilo do atacante.

"Ele fala todas as verdades na cara do filho. Não existe isso de passar a mão na cabeça. Cobra e cobra bastante, por isso está onde está. Há passagens em que Neymar foi repreendido pelo pai na frente de todos", afirma Marcelo Fernandes, ex-zagueiro e ex-técnico do Santos, representado pela NN Consultoria, empresa da família.

Fernandes faz parte do time que ama o pai do craque. Quando viajou para Barcelona e fez estágio no clube catalão, em janeiro, Neymar pai pediu que a assessoria de imprensa da equipe divulgasse a passagem do técnico pelo clube. Foi atendido.

EMPRESÁRIO
A NN Consultoria foi criada em 2011 para gerenciar carreiras de esportistas. O primeiro cliente foi Neymar. Hoje cuida também da carreira de atletas de diferentes esportes (como Thiago Braz, medalha de ouro nos Jogos do Rio no salto com vara) e da cantora sertaneja Karen K. No ano seguinte, ele criou a NJR para administrar os produtos com a marca do atacante, já então na seleção brasileira. Os ganhos do jogador já eram de R$ 1,5 milhão por mês.

A estrutura empresarial e a relação profissional de pai e filho causou problemas com a Receita Federal brasileira.

Os sócios eram o pai e a mãe do jogador, Nadine. A estrutura era pequena para cuidar de uma movimentação de dinheiro que crescia. Em 2011, o Barcelona pagou os primeiros 10 milhões dos 40 milhões de euros que daria ao pai do atacante pela transferência para a Espanha.

Em 2017, como representante das empresas, Neymar pai aceitou pagar multa de R$ 8 milhões, mas o processo não foi encerrado. Para cuidar do caso, o pai do jogador contratou o escritório de advocacia Trench Rossi Watanabe no Brasil, associado ao Baker & McKenzie, uma das maiores bancas de advocacia do mundo, que atende ao brasileiro na Espanha e tem entre seus clientes Cristiano Ronaldo e o grupo JBS.

O Grupo DIS entrou na Justiça acusando Neymar pai e filho de usar "contratos simulados e pagamentos escondidos" para não repassar para a empresa os 40% do dinheiro da negociação com o Barcelona, em 2013. Em 2009, a empresa pagou R$ 5 milhões para comprar essa porcentagem dos direitos do atleta.

"Tudo que meu pai indica para assinar, eu assino", disse o jogador na defesa do processo do fisco espanhol.

No papel de administrador da fortuna do filho, empresário e agente de futebol, ele não tem medo de queimar pontes. De destruir relacionamentos de forma que não há mais volta. Na saída do Santos, em 2013, tomou a frente para receber a "culpa" (na visão da torcida) e deixar Neymar Júnior em paz. A mesma fórmula que repetiu agora diante dos barcelonistas.

Sabe ser truculento no trato com dirigentes, agentes e jornalistas, se achar preciso.

Rompeu com Marcos Malaquias, empresário que tinha influência no Barcelona e ajudou na intermediação da ida de Neymar para a Espanha. Tem relação estremecida com André Cury, um dos representantes do clube catalão, que também ajudou nas tratativas. Rompeu com Eduardo Musa, que assessorava o marketing do jogador desde o começo da carreira profissional e ainda atendia chamados pessoais, como sair de casa em um sábado à noite para ir buscar a irmã de Neymar, Rafaella, em alguma festa.

"Muitos que eram próximos a ele já saíram, mas o tempo será a melhor resposta para tudo. Nunca recebi nada [da negociação com o Barcelona]. Não tive retorno financeiro porque não fiz nada por escrito", afirma Malaquias, que define o rompimento como algo causado por "problemas pessoais".

Musa hoje tem um processo na Justiça do Trabalho contra a empresa de Neymar. Ele afirma que o pai proibiu todas as pessoas do círculo mais próximo do filho de ter contato com ele.

"Ele é um negociador estratégico, muito determinado, mas que tem uma propensão pelo confronto que não consigo entender. Ele tem o melhor produto que poderia ter [o filho] e possui poder total sobre ele. Não precisa ter insegurança sobre nada, mas, invariavelmente, ele vai para o confronto. Eu não entendo, e nem preciso entender mais", diz Musa, hoje dono da Bravo Sports Business.

Uma estratégia que não pegou foi tentar fazer com que Neymar, ainda jogador do Santos, em 2011, passasse a ser Neymar Júnior na boca de torcedores e jornalistas.

"Neymar é meu pai. Eu sou Neymar Júnior", disse, mais de uma vez, o atleta no início da carreira. Não funcionou.

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