segunda-feira, 10 de julho de 2017


Venezuela em transe 
EDITORIAL Folha de São Paulo 
Ativistas durante protesto em Caracas, na Venezuela 

Completados cem dias de protestos de rua na Venezuela, com o trágico saldo de pelo menos 90 mortes, ainda não se vislumbra saída pacífica para a crise em que o governo autoritário de Nicolás Maduro afunda o país.

Houve, neste sábado (8), uma concessão cujo alcance permanece nebuloso: o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), alinhado ao regime chavista, transferiu à prisão domiciliar o líder oposicionista Leopoldo López, após mais de três anos de encarceramento.

Economista formado nos Estados Unidos, López recebeu pena de quase 14 anos por incitar manifestações. O TSJ divulgou ter agido por razões humanitárias.

A decisão se deu na esteira de uma escalada de violência e deterioração institucional que acirrou a insatisfação doméstica e externa com os rumos venezuelanos.

Particularmente grave foi a invasão da Assembleia Nacional -onde a oposição é maioria- por grupos violentos simpatizantes do chavismo, que chegaram a agredir deputados e intimidar jornalistas.

Maduro condenou o episódio, mas, dias antes, havia condecorado um coronel que agredira o chefe do Legislativo, Julio Borges.

Os militares mantêm-se na condição de sustentáculo do regime, embora com fissuras. Mais de cem foram detidos desde abril, quando começaram as manifestações cotidianas contra o governo.

Houve ainda o tresloucado roubo de um helicóptero por um policial dissidente para atacar com granadas o TSJ, iniciativa que, embora aparentemente individual, dá a medida do caos instalado no país.

Enquanto reprime os protestos com violência desproporcional, Maduro prossegue no desmonte institucional. Rompida com o governo após anos de subserviência, a procuradora-geral, Luisa Ortega Díaz, teve parte de suas atribuições transferida à Defensoria Pública e foi proibida de deixar o país.

Assim como a oposição, a procuradora tem sido crítica ferrenha da convocação de uma nova Assembleia Constituinte, iniciativa disparatada com a qual o autocrata procura arrostar o Legislativo e afastar a demanda por eleições presidenciais antecipadas.

Em tal cenário, não soa provável que a libertação de Leopoldo López contribua para amainar os conflitos -Maduro é refratário ao diálogo, e o sinal de capitulação pode encorajar manifestantes.

Vive-se, afinal, sob a pressão cruel da falta de alimentos, do colapso econômico e da criminalidade sem controle. O inferno chavista parece caminhar para uma implosão, não um desfecho organizado.

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