quinta-feira, 6 de julho de 2017

Leiam esse texto e vejam a história de uma presepada das grandes.

VIDA ALUCINADA (I)
Por Alberto Feitosa

Essa história aconteceu no carnaval de 1991, quando eu tinha 16 anos. Naquela época o meu pai tinha um mercadinho na Cel. José Fernandes, no centro de Pombal-PB, e para ver se escapava da quebradeira ele ia fazer uma grande promoção, com anúncios em carros de som e nas rádios. No dia 7 de fevereiro, uma quinta-feira, véspera de carnaval (me lembro como se fosse hoje), o meu pai disse “Beto (o meu nome é Alberto Feitosa, mas sou conhecido por Beto), pegue esse dinheiro e vá contratar dois carros de som para fazer a propaganda do queima de sábado”, e me entregou 30 mil cruzeiros. Eu botei o dinheiro no bolso e fui atrás dos carros de som. Quando cruzei a Praça Getúlio Vargas o meu primo Roberto vinha com três gatas e pára o seu Tempra Turbo, zero cabaço, bem nos meus pés, e me chama para ir com ele passar o carnaval em Canoa Quebrada, onde estava Pedro Paulo, primo meu e dele. Esse nosso primo estava nadando em dinheiro, com mais de 60 carretas puxando petróleo da Petrobras e onde ele estava, estava também o mulherio e a farra, sem dia e hora para acabar, e tudo 0800.

Eu não pensei duas vezes e, em vez de contratar os carros de som, entrei no Tempra de Roberto e me mandei pra Canoa Quebrada, sem avisar a ninguém lá de casa. Quando chegamos em Aracati Pedro Paulo já estava nos esperando com todo seu staff: umas quatro ou cinco girls, dessas capas de revistas, um trio-elétrico, com a banda Os Feras de Parelhas em cima, e uma multidão pulando atrás. Depois dos abraços da chagada Pedro Paulo nos “batiza” derramando um litro inteiro de Royal Salute na minha cabeça e na de Roberto, despertando palmas e gritaria dos foliões. Aí o tri-elétrico disparou com “ele não monta na lambreta” dos Chiclete com Banana e a negrada começou a pular, e a beber, e a jogar cerveja pra cima, e eu peguei uma garrafa de Chivas 12 anos e dei uns quatro ou cinco goles de uma só vez, direto do gargalho. Eu bebia Whisky como um beduíno bebe água. Eu nunca tinha visto uma loucura daquela, parecia que eu estava no paraíso. Depois que circulamos a cidade, Pedro Paulo disse “agora vamos animar o carnaval de Canoa Quebrada”, que ficava 12 km de distância.

Fomos na frente, em quatro bugres, todos cheio de mulheres de fio-dental, seminuas, e logo atrás vinha o trio, e mais atrás ainda vinha uma verdadeira carreata, tudo na maior animação. Quando estávamos na metade do caminho um bugre se emparelha com nosso para pegar bebida, e eu, sem avisar a ninguém, e completamente doidão, pulei de um carro para o outro a mais de 70 km/h. No exato momento em que pulei o outro carro abriu um pouco, me fazendo precipitar no vazio, metendo a cara no asfalto. Eu tocava na pista como ferro toca em esmeril, tirando faíscas. Não sei como não virei uma bola de tanto rolar na pista. Fiquei em carne viva e por sorte fraturei só o braço esquerdo. 
Aí tiveram que me levar de volta para Aracati, para que eu fosse atendido no hospital da cidade. Quando Pedro Paulo viu que a enfermeira me tratava com a mesma “delicadeza” de quem pelava um porco com água fervendo, sapeca-lhe a mão na cara, que era para ela aprender a ter mais cuidado com pessoas feridas como eu. Cinco minutos depois chega a polícia para prender o meu primo. Depois de muitos “vai-não vou”, Pedro Paulo vai depor na delegacia, mas logo é liberado e volta pra me pegar no hospital. Agora eu já estava todo enfaixado, só com uma perna, a mão direita e parte do rosto livres. O resto estava todo enrolado com ataduras, parecendo uma múmia. Ainda sob o efeito do álcool, fui até a pousada do holandês numa maca, em cima de uma camioneta, sentindo ardências e queimores por todo o corpo.
Mas desse no que desse eu não queria perder aquele carnaval, mesmo todo arrombado eu tinha que encontrar uma maneira de participar da folia. E comecei a beber. Era gemendo e bebendo, até ficar anestesiado pelo efeito do álcool. Foi quando eu pedi a Pedro Paulo que me botasse na maca, em cima da camionete, e me levassem pela cidade, seguindo o trio. Assim que saímos da pousada e passamos em frente de uma funerária, eu tive a ideia de comprar um caixão, que certamente seria mais confortável do que a maca em que eu estava. Ligeiro arrancaram a tampa desse caixão e me socaram dentro, mas antes tamparam as minhas narinas com algodão, sacudiram mercúrio em minhas ataduras e me cobriram de flores brancas, depois me puseram em cima da camionete e começamos a circular pela cidade. Por onde o trio passava as pessoas vinham olhar o "defunto" e de uma hora para outra me transformei na maior atração daquele carnaval, mais até que o trio, com direito inclusive a fleches na televisão. O trio improvisou a música do defunto, cantada até por crianças. Depois tiraram o caixão de cima da camionete e passaram a carregá-lo pela multidão, comigo dentro. Vez ou outra a turma me “afogava” de whisky. Sempre nessa hora a banda tocava “água mineral”, para delírio dos foliões. Já no começo da noite me levaram para um restaurante de um evangélico, desses xiitas, e me botaram em cima das mesas. O evangélico considerou aquilo como uma heresia e raivosamente sacode o caixão no chão, espatifando-o. depois de muita confusão, dessa vez sai ileso (também não tinha mais lugar para me ferir) e me pegaram e me levaram para a pousada do holandês.

Passamos a quarta-feira de cinzas, a quinta e a sexta farreando em Aracati e só voltamos para Pombal no sábado. Cheguei de muletas, e ao chegar em casa a minha mala estava pronta na calçada: “Aqui você não entra mais”, gritou o meu pai. “Na nossa família não tem cabra safado de sua marca não. Puxe fora daqui e desapareça de minha vista!” Peguei a minha mala e sem dizer nada fui para a casa de minha avó e na quarta-feira fui aventurar a vida em São Paulo. Lá levei vida de cão, mas ganhei dinheiro (depois eu conto como foi) e em 1994 estava de volta num Golf GTi, importado. Paguei as duplicatas atrasadas do mercadinho do meu pai, remontei cercas de sua pequena propriedade e ainda o presenteei com 15 vacas leiteiras.

Em Tempo: Levando a vida em farras, o meu primo Pedro Paulo terminou perdendo tudo o que tinha e hoje é um simples motorista de caminhão.

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