segunda-feira, 3 de julho de 2017

Empresas do RS estão pagando melhor para os novos contratados
Sintoma de que o mercado de trabalho está reagindo, salários de contratação crescem há sete meses no Estado, o que é positivo para para quem tem mais qualificação
Caio Cigana* - Zero Hora
Andressa Ribeiro, com a filha Thays Eduarda, obteve vaga em uma rede de farmácias em Porto Alegre  

Enquanto recém aparecem os primeiros sinais de que as taxas de desocupação pararam de piorar, um indicador ligado à renda pode atestar que a reação do mercado de trabalho, pelo menos para a mão de obra mais qualificada, começa a melhorar. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), enviado pelas empresas ao Ministério do Trabalho, mostram que, tanto no Estado quanto no país, os salários de admissão têm aumento real (acima da inflação) há sete meses consecutivos em relação a igual período do ano anterior.

Em maio, o valor médio pago a quem foi contratado no Rio Grande do Sul chegou a R$ 1.388,91. É 1,1% acima dos R$ 1.373,39 do mesmo período do ano passado – dado corrigido pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).

O movimento, iniciado em novembro do ano passado, reverte a tendência observada nos últimos anos, quando o Brasil entrava na recessão. No intervalo anterior de 17 meses, em apenas dois é verificado aumento real do salário de admissão no Estado. No cotejo com o mês imediatamente anterior, foi a quarta vez seguida que o vencimento de quem tem a carteira assinada por uma empresa cresceu.
Apesar da melhora no indicador, o salário médio de admissão no Rio Grande do Sul está abaixo do nacional, que chegou R$ 1.458,12 em maio, 3,8% acima de igual período de 2016.

Para Giácomo Balbinotto Neto, professor de economia do trabalho da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a inversão da curva pode indicar que, diante da grande oferta de mão de obra disponível devido ao avanço do desemprego, as empresas estão contratando os mais qualificados, com remuneração melhor.

O que pode ter acontecido é uma depuração. Muitas empresas quebraram, e as que sobraram ou foram criadas nesse meio tempo estão demandando uma quantidade maior de mão de obra qualificada, a partir de um critério de seleção mais rigoroso, identificando os melhores em termos de educação, treinamento e experiência – avalia Balbinotto.

O professor da UFRGS, entretanto, alerta que essa situação não significa ainda uma recuperação consistente do mercado do trabalho. Os demais indicadores divulgados nos últimos dias e semanas apontam apenas para um quadro de estabilização. Ou seja, a boa notícia é de que a situação do emprego ao menos parou de se deteriorar.

Mudança no perfil do trabalhador almejado
O coordenador do Conselho de Relações do Trabalho da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Paulo Garcia, lembra que, após os elevados ganhos reais concedidos aos trabalhadores entre 2010 e 2012, a crise obrigou as empresas a demitirem devido aos obstáculos legais a outras alternativas para reduzir o custo com mão de obra.

A partir dos sinais de que a atividade parou de piorar e ensaia uma recuperação mesmo tímida, muda o perfil do trabalhador buscado.

O trabalhador capacitado é o primeiro que volta ao emprego – diz Garcia, avaliando que há ainda otimismo moderado com a expectativa de que, apesar da turbulência política, serão feitas as reformas trabalhista e da Previdência.

O professor de economia Gustavo Inácio Moraes, da Escola de Negócios da PUCRS, observa que não há contradição no avanço dos salários de admissão enquanto o mercado de trabalho como um todo está agora de lado. Isso não significa, ressalta, que mais pessoas estariam sendo contratadas, mas apenas mais qualificadas.

Talvez em 2019, 2020, quando a economia se recuperar de forma consistente, poderemos ver o salário médio de admissão menor, porque aí serão as pessoas com menos qualificação que estarão sendo contratadas – observa.

Outro fator que ajuda a explicar a queda real dos salários de admissão até o ano passado e agora passa a contribuir de forma positiva é a inflação, que atualmente corrói menos o poder de compra dos trabalhadores. Em janeiro de 2016, o INPC, utilizado na correção dos salários, acumulou alta de 10,31% em 12 meses, taxa mais alta desde novembro de 2002. Em maio deste ano, no mesmo intervalo de tempo, sobe somente 3,35%.
Retorno ao mercado de trabalho
Uma das funções que tiveram aumento nos salários de admissão no Rio Grande do Sul foi a de operador de caixa no comércio de produtos farmacêuticos. Conforme números do Caged, o rendimento médio dos profissionais que exercem essa atividade subiu para R$ 1.148 em maio passado, alta de 8,29% em relação a igual período de 2016. No quinto mês deste ano, o INPC acumulado em 12 meses ficou em 3,35%.

Foi nesse segmento que Andressa Thais da Silva Ribeiro, 24 anos, encontrou a maneira de deixar os seis meses de desempregada para trás. No fim de abril, começou a trabalhar em uma farmácia de Porto Alegre. Antes, havia sido operadora de caixa em um supermercado.

Foi ótimo (encontrar trabalho) em uma crise como esta. Fiquei muito feliz quando me ligaram para falar que havia passado na seleção – lembra.

Com o novo salário, conta, a jovem consegue pagar o aluguel de sua moradia e vencer as despesas que tem com sua filha Thays Eduarda, de três anos.

Tenho uma amiga que está procurando emprego há tempo. Fez entrevistas, mas ainda está bem difícil – afirma Andressa.

Nenhum comentário: