sexta-feira, 21 de julho de 2017

Dostoiévski lido já com alguma experiência de vida...


Quando li "Crime e castigo" a primeira vez, estava absorvido por múltiplas e desordenadas leituras, tinha uma compreensão maniqueísta da existência e Lênin acabara de surgir no meu horizonte como a figura perfeita do herói. Em minha confusão, eu acreditava que aquela desagregação existencial que Antonio Callado mostra em "Quarup" era a condição essencial do ser humano. Meses mais tarde, eu me aventuraria numa viagem confusa e decepcionante à Bahia, disposto a recomeçar minha vida em alguma comunidade paupérrima que, eu acreditava, me apresentaria o verdadeiro Brasil.

Como descobri muito tempo depois, todos nós temos o pleno direito de sermos idiotas aos dezessete, vinte anos. E exerci esse direito plenamente, inclusive no que se refere às minhas leituras.

É uma pena que eu não tenha mais aquela edição de "Crime e castigo", na qual anotei com sofreguidão, nas últimas páginas, elaboradas ofensas a Dostoiévski, criticando-o por permitir que seu personagem alcançasse a redenção. E como detestei Raskólnikov quando ele se lançou aos pés de Sônia, derrotado pelo amor. “Não, não, não!” – meu cérebro gritava, apegando-se a um niilismo infantil.

Duas décadas se passaram até que eu relesse o romance, agora de maneira quase febril, exaltado pela narrativa, negando-me, desde a primeira página, a qualquer tipo de distanciamento crítico. Eu desejava ler pelo prazer de ler.

Se havia algum resquício do jovem da primeira leitura, ele morreu ali, página a página, até chegar ao Epílogo, quando foi definitivamente sepultado. Nunca agradeci tanto a um escritor. A redenção de Raskólnikov era a minha redenção. Se aquele assassino podia zerar o passado e reiniciar a vida, então também para mim — e para todos — o recomeço era possível. E a pena de sete anos, diante da paz interior finalmente encontrada, era, realmente, uma insignificância.

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