sábado, 3 de junho de 2017

Luzes no meio da névoa
Novos sinais positivos foram adicionados à economia, ainda marcada pela crise política
O Estado de S.Paulo

Novos sinais positivos, como o aumento da produção industrial em abril, foram acrescentados ao quadro econômico recente, ainda marcado por muita insegurança e enevoado, nas últimas duas semanas, pela crise dentro da crise política. Em maio a venda de veículos novos no mercado interno foi 24,6% maior que a do mês anterior e 16,8% superior à de um ano antes. A exportação de manufaturados de janeiro a maio rendeu US$ 30,9 bilhões, 8,9% mais que a dos cinco primeiros meses de 2016. Se o Brasil saiu mesmo da recessão, se houve um tropeço no segundo trimestre ou se o País voltará ao buraco, derrubado pela turbulência em Brasília, só se saberá mais tarde. A hipótese de tropeço foi reforçada pela estimativa preliminar, divulgada pelo Banco Itaú, de uma produção industrial 1% menor que a de abril. Não há como desprezar, no entanto, o surgimento, embora discreto, de dados materiais favoráveis.

Em abril a atividade aumentou em 13 dos 24 ramos cobertos pela pesquisa industrial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar disso, o total produzido no ano continuou 0,7% menor que o contabilizado nos primeiros quatro meses de 2016. Mas também para esse detalhe há uma contrapartida positiva. A queda acumulada em 12 meses, de 3,6% pelo último balanço, continuou diminuindo. A mudança de rumo começou na virada para o segundo semestre de 2016, quando o resultado de 12 meses apontava um tombo superior a 9% ao longo de um ano.

A recuperação da indústria continua desigual e dificultada pela retração dos consumidores. O orçamento da maioria das famílias permanece apertado. É necessário manter cautela nas compras, embora a inflação em queda tenha permitido alguma preservação da renda. O desemprego de 14 milhões de pessoas, ou 13,6% da força de trabalho, também estimula a prudência. O ligeiro aumento da poupança no primeiro trimestre, indicado pelas contas nacionais, deve ser parcialmente explicável pela moderação nas despesas familiares.

A produção de bens de capital – máquinas e equipamentos – e a de bens de consumo duráveis destacam-se no quadro da atividade neste ano.

A fabricação de bens de capital aumentou 1,5% de março para abril. O resultado acumulado no ano foi 1,9% maior que o do primeiro quadrimestre de 2016. Esses dados chamam a atenção principalmente porque o investimento produtivo continua muito baixo e foi, no primeiro trimestre, inferior ao de um ano antes.

Vendas de caminhões e de equipamentos agrícolas e aumento das exportações devem explicar boa parte dessa reação. Além disso, parte das empresas deve ter sido forçada a substituir uma parcela de seu equipamento, depois de vários anos sem investir.

O aumento da produção de bens duráveis de consumo também chama a atenção, numa fase de crédito escasso e ainda muito caro. Parte relevante desse aumento deve ser atribuível ao esforço de vendas da indústria automobilística. Os efeitos desse esforço, alimentado por algumas promoções, são confirmados pelos balanços de vendas divulgados pelas montadoras e também pela federação de revendedoras.

O comércio exterior tem dado contribuição relevante para a reativação da indústria. De janeiro a maio as vendas externas de semimanufaturados e manufaturados totalizaram US$ 43 bilhões e foram 10,6% superiores às de um ano antes, pela média dos dias úteis. A parcela dos manufaturados (US$ 30,9 bilhões) superou a de igual período do ano anterior por 8,9%, embora a comparação entre os meses de maio aponte um recuo de 1,2%. O aumento das vendas externas, na comparação dos períodos de cinco meses, foi notável nos casos de automóveis de passageiros (49,5%), veículos de carga (60,9%), tratores (38,7%) e laminados planos (29,3%).

Outro bom sinal, especialmente importante, é a redução de 8,4% dos pedidos de falência e de 21,7% das solicitações de recuperação judicial na comparação de janeiro a maio deste ano com os cinco primeiros meses de 2016. Quantos políticos estarão dispostos a inverter essa tendência?

Nenhum comentário: