quinta-feira, 4 de maio de 2017

Reportagem do jornal O Globo sobre as belezas da Paraíba.

NA PARAÍBA, PISCINAS NATURAIS, CORAIS E PEIXES SÃO ATRAÇÕES DO LITORAL
Beleza natural está presente em João Pessoa e arredores
CAROLINA MAZZI
OGlobo

JOÃO PESSOA - O Rio Paraíba, que atravessa boa parte do estado de mesmo nome, tem margens largas, cercadas pelo verde de seu abundante mangue. Quando a maré está baixa, recomenda-se ao turista olhar as encostas: centenas (se não milhares) de caranguejos de vários tamanhos saem das tocas nas areias à procura do sol. É só o primeiro fenômeno da “natureza perfeita” — como diz a música “O mundo é assim”, de Alvaiade, da Velha Guarda da Portela — que se faz presente nos arredores da capital, João Pessoa.

Ainda no rio, à direita, é possível ver uma das primeiras intervenções europeias (no caso, dos portugueses) no local: as ruínas do Forte de Santa Catarina, feito para proteger a região da invasões francesa e holandesa.

O monumento histórico está quase na esquina do encontro do rio com o mar. A partir daí, as águas agitadas do oceano vão se misturando até que a tonalidade escura do rio é totalmente substituída pela transparência do Atlântico: o passeio leva às piscinas naturais, que todos os dias dão o ar da graça na maré baixa. O mais importante é ser preciso: elas estão ali por, no máximo, três horas, quando surgem como que do nada, apresentando os corais e outras espécies das diversificadas fauna e flora locais.

Há piscinas naturais em quase todos os pontos do litoral de João Pessoa, capital da Paraíba. As mais famosas — ainda que pouco conhecidas pelo resto do Brasil quando comparadas às de Pernambuco ou Alagoas — são as de Areia Vermelha, Picãozinho e Seixas. Para alcançá-las, só de barco. Na praia do Bessa, carinhosamente apelidada de “Caribessa”, visitar suas piscinas é passeio que pode ser feito em caiaque ou sobre uma prancha de stand up paddle (SUP).

E não é só dessas piscinas naturais que vive a Paraíba: aproveitar a longa faixa de areia de Cabo Branco e Tambaú, visitar as construções históricas e provar da gastronomia local, tudo isso na capital, são boas dicas. Outra: seguir o litoral rumo ao sul: são quilômetros de areias brancas, falésias, águas claras e coqueiros, nas praias de Conde. O clima hospitaleiro de sua gente é o anfitrião perfeito para vivenciar uma Paraíba a desvendar.

Entre bancos de areia e labirintos de corais
Falésia. No ponto mais oriental das Américas, piscinas naturais do Seixas e o Farol do Cabo Branco 

Nas piscinas naturais da Paraíba, a maré baixa não acontece cedinho. O ideal para conhecer a biodiversidade de seus corais (“é proibido tocá-los”, lembram os guias), é chegar ao barco por volta das 9h, quando o mar já começa a recuar.

As piscinas de Areia Vermelha são tidas como uma das mais belas. Para tirar a prova, dá para embarcar tanto da praia de Camboinhas, em Cabedelo, município vizinho à capital, como de um pequeno porto às margens do Paraíba, na mesma cidade — cujo passeio é mais recomendado, justamente porque passa pelo rio.

De lá, saem catamarãs a cada meia hora, a partir do momento em que a maré começa a baixar (as tábuas com os horários são diariamente atualizadas no site da Costa do Conde, o bit.ly/2oTHFGl). Eles seguem por 40 minutos (20 minutos, se a saída for da praia) até o banco de areia.

Partindo do cais do porto de Cabedelo, atravessa-se o verde do mangue e as construções às margens do Rio Paraíba, entre elas o Forte de Santa Catarina. O lugar está aberto à visitação e se, ao longe, parece um acumulado de ruínas, lá dentro, canhões e partes de grilhões em celas sombrias mostram os duros tempos de guerra no período da colonização nordestina. A visita ao forte tem que ser feita em outro passeio, por terra. Para chegar às piscinas, navega-se mais um pouco até encontrar o oceano, onde áreas de areia vermelha — como diz o nome — surgem no horizonte.

Uma das vantagens de Areia Vermelha é sua extensão: os bancos que se formam estão entre os maiores da região. Por isso, dá para ficar por lá por mais tempo — a maré leva até quatro horas para cobrir tudo — e fazer uma caminhada mais longa para contemplar o cenário com calma, já que a praia é uma das mais cheias.

Ao redor das piscinas, os catamarãs se aglomeram, não só desembarcando pessoas, mas vendendo refeições e bebidas. Tudo é consumido dentro dos barcos para evitar sujar a água.

As piscinas naturais de Picãozinho, a dois quilômetros da costa, são acessíveis pela praia de Tambaú, em João Pessoa. É um passeio que deve ser feito, se possível, em dias de semana, quando há menos gente, especialmente para quem prefere apreciar os corais calmamente. Os catamarãs são a forma mais comum de acesso. Se o passeio para conhecê-los for no fim de semana, prepare-se para seguir em fila indiana pelos corais, o que deixa a visita mais demorada, de fato. Mas não afeta a beleza do lugar.

Cavalos-marinhos e artesanato
Por ali, as formações são verdadeiros labirintos dentro do mar. O snorkel facilita, mas com águas tão transparentes, basta uma olhadela pra baixo para apreciar ao menos uma dezena de peixes de diversos tamanhos e cores. Cavalos-marinhos, mais raros, se escondem em meio aos corais mais distantes das embarcações e mais próximos ao mar aberto.

Na volta, vale dar uma esticada por Tambaú, praia que fica entre a famosa Cabo Branco e a Manaíra, com 8km de extensão de areais brancas e águas cristalinas. O Mercado de Artesanato Paraibano, próximo, tem lojas que vendem suvenires produzidos no estado (como os famosos bonecos de Caruaru, as bolsas e as roupas de algodão colorido) e outros artigos e comidinhas da cultura regional.

Seguindo rumo ao sul, as próximas piscinas naturais ficam em frente à Ponta do Seixas — o ponto mais oriental das Américas. O acesso até elas é pela praia de Cabo Branco, em um trajeto que não passa de 15 minutos de catamarã. Por cerca de três horas, elas podem ser visitadas. São as menores e, portanto, as que ficam menos tempo disponíveis.

Nesse ponto, lá de dentro do oceano, com a vista para o farol e para o pontal — e sentindo no corpo os cardumes que atravessam as piscinas de um lado ao outro, alheios à presença humana —, que “não há quem possa duvidar”, como já dizia a canção da Velha Guarda da Portela: “a natureza é perfeita”.

O apelido é “Caribessa”, uma junção entre a praia do Bessa, em João Pessoa, e o Caribe. Difícil dizer quem sai da comparação mais lisonjeado. Além dos quilômetros repetitivos do encontro da água azul com as areais brancas, a praia nordestina tem o seu quê de especial.

Caiaque e SUP no Caribe paraibano
Um desses aspectos únicos é a facilidade que se tem para alcançar as piscinas naturais de mesmo nome. Não são poucas as empresas, instaladas na areia, que oferecem caiaque, stand up paddle (SUP) e até jet-ski (para quem é habilitado ou só quer uma carona) até os corais, que são visíveis só quando se chega bem perto.

O mar calmo garante o passeio até aos mais novatos nos esportes. Mas quem precisa, é claro, recebe instruções de como manusear as pás e chegar ao local sem muito esforço. Um cuidado que é também uma obrigação: na hora de remar, atenção aos corais, já que essas piscinas, em maré baixa, têm pouca cobertura de água.

Chegando, mergulhos nas águas mornas em meio ao Oceano Atlântico, peixinhos como companhia e a vista do litoral de João Pessoa como cenário. A vontade é de não ir embora tão cedo, mas é preciso seguir o cronograma determinado pela natureza: a maré já vai subir

Praias urbanas e trilhas na Ilha da Restinga
Coqueiral: construção histórica em meio à natureza na Ilha da Restinga - Antonio David Diniz / Divulgação/PBTur

Quem não quer se preocupar com os horários das marés ou prefere alongar a visita às piscinas com mais algumas boas horas de praia, pode (e deve) visitar a praia de Cabo Branco, provavelmente a mais popular da capital. De lá, dá para ver a Ponta do Seixas e o litoral “caribenho” da Praia do Bessa. A fama fez bem a Cabo Branco, que tem infraestrutura organizada, orla limpa e bem cuidada.

Visitar o Farol do Cabo Branco para avistar a Ponta do Seixas é programa de dez em cada dez turistas que chegam à Paraíba. De cima, o cenário paradisíaco poderia deixar pouco para a imaginação: areias brancas, coqueiros balançando ao vento e águas muito claras. E tem um sorvete de caipirinha que, para quem não estiver dirigindo, vale uma provinha.

Se for para fazer uma boa caminhada ou pedalada no fim de tarde, a recomendação na capital é a Praia de Manaíra, que tem ciclovia extensa e calçadão com opções diversas de quiosques. Ainda em João Pessoa, o caminho segue até a Praia da Penha, um dos primeiros acessos dos colonizadores portugueses à nossa orla.

Na charmosa pracinha que dá acesso à areia, fica o Santuário de Nossa Senhora da Penha, construção de 1763, onde, hoje, os devotos de Padre Cícero levam objetos que representam milagres supostamente realizados por ele. São fotos, instrumentos musicais e miniaturas de casas, tudo representativo daquilo que foi conquistado graças à fé, dizem os devotos.

Verde para que te quero
Na esquina da igreja, tem um mirante e dali sai uma descida de pedra. Vale parar para observar a vista. E não deixe de descer a escada: é ela que leva à bela praia que dá nome ao santuário.

Se for possível enjoar da vida praiana — ou se a ideia for curtir um clima diferente — vale voltar para Cabedelo e, do portinho da pequena cidade, embarcar até a Ilha da Restinga, trajeto oferecido exclusivamente pelos proprietários do local, que abriram a área para explorar o potencial de ecoturismo, levando em conta a preservação dos manguezais e da fauna e flora da Mata Atlântica.

A visita é feita em grupos de, no mínimo, quatro pessoas. O guia que percorre toda a ilha com o grupo é o biólogo e pesquisador Pedro Limeira, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que pesquisa as espécies de plantas e animais que vivem por ali. Vista de longe, ou de cima, a ilhota tem formato de coração (dá para perceber na chegada de barco) e cerca de seis quilômetros quadrados.

Os cajueiros, árvores nativas da região, chamam atenção pelo tamanho e o formato. Segundo Neto, essa é forma natural com que a árvore cresce sem poda, prática comum nas cidades e fazendas. A fauna local, que inclui garças, galinhas d’água e tico-ticos, tem, como única fonte de água não salgada da ilha, pequenas áreas alagadas pela chuva, que formam, nas épocas certas (normalmente entre dezembro e janeiro), verdadeiros lagos no chão arenoso, proporcionando um contraste bem marcante.

Há ainda na ilha construções e objetos que sobreviveram ao tempo, como um moedor de cana-de-açúcar, da época em que a ilha funcionava como engenho.

Ali, nem parece que estamos na mesma Paraíba das piscinas de corais e praias, que ficam a apenas poucos quilômetros. Mas é ela mesma, tanto bonita quanto, em sua diversidade.

As falésias e onde rio e mar se encontram
Falésias: presentes em quase todo o litoral sul da Paraíba. Acima, as de Tambaba, região de naturismo - Antonio David Diniz / Divulgação/PBTur

É hora de seguir rumo ao sul, onde estão as praias mais famosas do litoral da Paraíba. A primeira parada é em Barra de Gramame, que divide a capital e a cidade de Conde. Vila de pescadores, tem sua praia muito frequentada pelos paraibanos. Já na entrada, as árvores de caules largos e rasteiros impressionam, e se misturam com as barraquinhas que vendem de tudo um pouco, incluindo iguarias regionais, como o caranguejo.

A paisagem se abre para o encontro entre o mar e o Rio Gramame. O ideal é chegar no fim de tarde para observar o pôr do sol e aproveitar para nadar na água doce, morna e tranquila que entra pelas areias para se encontrar com o oceano. Nessa parte do mar, a correnteza é forte. O conselho para curtir a linda paisagem despreocupadamente é mesmo se banhar no rio. Ou ainda, por conta das águas calmas, passear de caiaque e stand up paddle (SUP).

Nudez recompensada
O caminho segue e agora já estamos no município de Conde, onde a paisagem se abre para as falésias de Tambaba, praia de naturismo. Quem não é adepto pode admirar as formações rochosas devidamente vestido nos mirantes que se espalham pela região. Para entrar na praia, aí sim, é preciso tirar a roupa mas, neste caso, toda nudez será recompensada com cenários grandiosos de belos contrastes entre o azul do mar e as tonalidades arenosas das rochas.

Para quem não quiser se aventurar nas praias do jeito que veio ao mundo, vale seguir até a Praia de Coqueirinho, talvez a que mais se aproxime do clichê “paradisíaco” no estado. Não tem erro: coqueiros que fazem sombra às faixas de areia branca e fina, que, por sua vez, recebem o azul esverdeado (ou seria verde azulado?) do mar paraibano. Em alguns pontos de mar mais aberto, as ondas fortes vão agradar aos surfistas. Pesca submarina e mergulho são também praticados no local. Tem programa para o dia inteiro e, se a ideia é mesmo ficar muito tempo nessas águas, a pedida para comer são os frutos do mar, como era de se esperar. No restaurante Canyon de Coqueirinho, lagostas super frescas são abundantes no horário do almoço. Mas o destaque mesmo é o prato de Siri Mole, ideal para ser apreciado como petisco.

Experimentações paraibanas
Com pratos que agregam técnicas francesas e ingredientes nordestinos, o chef paraibano Onildo Rocha abriu, em fevereiro, no bairro de Tambaú, o Cozinha Roccia, seu primeiro restaurante próprio, depois de quatro anos no Hotel Cabo Branco Atlântico, que está localizado na praia de mesmo nome.

Usando matéria-prima de produtores do estado — inclusive a louça, que é de cerâmica e feita por cooperativas do sertão —, o menu é bastante autoral. Manteiga artesanal, pipoca de feijão-verde e teriyaki de rapadura são boas pedidas. O prato de carne curada, com mil folhas de macaxeira e um fondue de queijos nordestinos com picles de maxixe, também vai agradar.

No cardápio, há receitas mais tradicionais, como feijoada e galinhada. Já os fãs de carne vermelha devem experimentar o Nosso Burger, composto de queijo manteiga, maionese de coentro, picles de maxixe e alface americana. Aos fins de semana, há fila para entrar no restaurante. Vale esperar no primeiro andar, onde há uma agradável bar que serve drinques, petiscos e sanduíches.

Carolina Mazzi viajou a convite da Secretaria de Turismo da Paraíba

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