segunda-feira, 29 de maio de 2017

O ENCOBRIMENTO DA VERDADE
MIGUEL LUCENA
DiáriodoPoder
Para o servidor público se dar bem na burocracia estatal, ele precisa se especializar na arte do encobrimento, consistente na afirmação de meias verdades e no fazer vistas grossas para a realidade à sua volta.

Na era dos direitos sem responsabilidade, cobrar deveres constitui ofensa imperdoável, correndo-se o risco de processos por assédio em face da sagrada prerrogativa do subordinado de só trabalhar quando estiver bem disposto e satisfeito com a vida.

A indústria dos atestados é uma prova de que há um mal-estar instalado no serviço público, embora este remunere em média melhor que o setor privado.

Um estagiário de Direito, que ganhava dois salários mínimos em um escritório de advocacia, é aprovado em concurso para o serviço público, passa a ganhar cinco ou dez vezes mais e já chega reclamando, comparando seu vencimento com outras carreiras e adoecendo, muitas vezes de conveniência, quando a tarefa ou a lotação não lhe agradam.

Os chefes desses servidores, para não lhes desagradar, sempre os avaliam com nota máxima, assegurando-lhes progressão funcional com louvor, embora uma parte não tenha demonstrado aptidão para a carreira que pretendia abraçar.

Conquista-se um horário melhor de trabalho, com carga reduzida, e descumpre-se a nova jornada, chegando-se atrasado do mesmo jeito.

Um investigador constata que uma criança foi violentada porque houve negligência por parte de quem devia protegê-la, mas, preso o violentador, as demais questões são encobertas, para não ferir suscetibilidades decorrentes da ideologia do politicamente correto.

Não se pode criticar os moradores da Cracolândia, por serem vítimas da sociedade. É desumano censurar o anjo caído e abominável fazer juízo de valor, para não desvelar a verdadeira face de quem preferiu viajar num mundo de ilusões e prazeres fortuitos a encarar a realidade e cumprir suas obrigações com pais e filhos.

Premia-se a irresponsabilidade. Quem mais cospe na civilização é que deve receber atenção e cuidado. Até deve, desde que se submeta às regras estabelecidas pela maioria, que não pode ficar aprisionada aos caprichos de poucos. O bandido queima o colchão do presídio e ganha um novo, dado não pela sua família, mas pela sociedade.

Felizmente, sem perder a compaixão, desvencilhei-me de muitos engodos em que acreditava e agora volto minha atenção para a guerreira e o guerreiro que saem de casa às 5h da manhã para ganhar o pão de cada dia e não têm com quem deixar os filhos, e isto, sim, é um grande desrespeito aos direitos humanos.

Miguel Lucena é delegado da Polícia Civil do Distrito Federal e jornalista.

Um comentário:

Marcos Diniz disse...

Taí um caba danado de macho!