quarta-feira, 3 de maio de 2017


Menos pessimismo 
Editorial da Folha

Após quase três anos de recessão, acumulam-se sinais tênues de melhora das condições econômicas. Inflação em queda, produção em tendência de alta e renda das famílias em equilíbrio, por exemplo, indicam que o pior já passou.

Não surpreende, assim, que o Datafolha tenha detectado redução do pessimismo quanto aos desdobramentos da crise, mesmo no contexto de desaprovação crescente ao governo Michel Temer (PMDB).

A parcela dos brasileiros que esperam piora caiu para 31%, dez pontos percentuais abaixo do apurado ao final de 2016. Houve também expansão, de 37% para 45%, dos que confiam em melhora de sua situação pessoal.

Ainda incipiente, o movimento está calcado em elementos palpáveis. A começar pelo início de recuperação do poder de compra dos salários: a safra agrícola recorde freou os preços dos alimentos neste ano, o que beneficia em especial os segmentos de baixa renda.

A queda rápida da inflação, acompanhada de dissídios trabalhistas relativamente elevados (refletindo índices anteriores de custo de vida), permite um espaço extra no orçamento doméstico, que pode ser direcionado ao consumo.

Para que isso se materialize, a volta da confiança desempenha papel crucial –dela depende a mudança nas decisões da parcela majoritária da população que continua empregada. Não se espere alguma nova onda de compras no crediário; a redução dos temores econômicos, no entanto, pode levar a despesas até aqui represadas.

Pelo lado da produção, além da agropecuária, surgem boas notícias na indústria.

O setor foi o primeiro a cortar projetos e empregos, quatro anos atrás, num prenúncio do colapso geral que viria depois. Agora, os ajustes principais —de estoques e custos— estão feitos; há margem para voltar a crescer.

A última sondagem da Fundação Getulio Vargas indica alta na demanda por investimentos pela primeira vez desde 2013. Depois de amargar queda devastadora, de 26% nos últimos três anos, a expectativa é de pequeno crescimento neste 2017, próximo a 3%.

De todo modo, ainda parece pouco provável que tais sinais traduzam-se em avanço palpável do bem-estar da população —com recuo do desemprego, por exemplo— antes do final do ano.

As expectativas de analistas e investidores permanecem cautelosas, à espera do desenrolar das reformas, em especial a da Previdência. Um desfecho positivo pode não ser suficiente, mas é imprescindível para voos mais altos.

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