quarta-feira, 3 de maio de 2017

Melhor chamar de retardado...


Você conseguiria entender Shakespeare (não apenas entender, mas apreender, saborear, explorar e ser capaz de dar uma aula haroldbloomiana do bardo) se seu vocabulário em inglês não passasse do verbo "to be", e sem "that is the question"? Pois é exatamente o que vocês estão tentando fazer com política. 

Ao invés de enriquecer o vocabulário, perceber nuances que ninguém mais nota, olhar para a bigpicture e também descer às filigranas, trabalhar com diferenças e semelhanças, com luz e sombra, com uma paleta de cores maior do que um tom de cinza, o que se vê são apenas tentativas de analisar situações extremamente complexas com um vocabulário tacanhamente pobre: o que mais tem é gente FORÇANDO o vocabulário a ficar menor, DESEJANDO reduzir tudo ao maniqueísmo de gibi infantil, PREGANDO que qualquer nuance percebida é coisa de traidores alienados e ainda CRITICANDO com histrionismo afrescalhado de prostituta barata quem está vendo MAIS do que ele.

É um prazer incomensurável começar a estudar ciência política e descobrir um universo gigantescamente maior do que conhecíamos, saber de sutilezas maiores do que "direita e esquerda", conhecer nomes que não apenas não aparecem na grande mídia: são desconhecidos até de quem FAZ a tal grande mídia. E assim por diante.

Mas aí vem o pacto mefistofélico de 140 caracteres e, ao invés de olhar bem para o mundo, olhar bem para o próprio conhecimento, e concluir assombrado: "Poustas que las cacilda, o mundo é bem maior!!!!!", não, sai achando que pode ROTULAR tudo (simplesmente TUDO) com 3 palavrinhas mágicas (IGUALZINHO feministas fazem, sem tirar nem pôr) e voilà: agora é todo mundo "de esquerda". Ou "globalista". Ou "socialista fabiano". Ou "lobo em pele de cordeiro" (engraçado como você vê um único comentário, e o clichê estará reproduzido ipsis litteris em TODOS os outros). Etc etc etc, num regressus ad originem putaqueopariumente chato e interminável.

E como se de fato uma descrição dilatada (como "esquerda") fosse suficiente para diferenciar Pol-Pot de Roberto Freire (creia, anta: tem lá uma certa diferença). Ou que algo de uma complexidade atroz como o globalismo, por definição uma nano-elite controlando, com desejos ocasionais, quais entidades determinam os rumos do mundo (como o Facebook, ou a CNN, ou o CFR), de maneira discreta e não-pública, numa rede de triangulações de deixar os petroleiros parecendo os Três Patetas, pudesse ser percebido ligando-se a TV, vendo o prefeito de São Paulo e gritando: "Ahááá! Achei quem puxa as cordas! Globalista! Globalista!!!"

O pior é que, exatamente como a esquerda fez com a palavra "fascismo" (outrora um termo técnico, hoje um xingamento oco de sentido, como você tropeçar numa pedra, olhar pra pedra e gritar: "fascista!"), vão retirando o conteúdo e o substrato de termos IMPORTANTÍSSIMOS para sair aplicando-os a esmo, sem critério, sem distinção, sem dentro e sem fora, sem nada que separe o que é do que não é, além do faniquito histérico e aviadado do momento (o que só depõe contra a sua retidão intelectual).

Spoiler: naqueles Diálogos lá do Platão, o tal Sócrates tá o tempo todo carcando a poronga em gente que pensa e age exatamente como você, parceiro.

Aprendam a trabalhar com MAIS vocabulário, e entendam que quando vocês querem XINGAR, usem os bons e velhos "retardado", "vagabundo", "filho duma égua" etc: ninguém nunca foi verificar o QI de alguém chamado "retardado", pediu a Carteira de Trabalho de alguém chamado de "vagabundo" ou acreditou que o ser nasceu por bestialidade, porque xingamento (e é um lingüista aqui falando) DESTITUI A PALAVRA DE SENTIDO. 

Agora, se quer usar termo técnico, e ainda os mais importantes da atualidade, deixe pra quem sabe. Não queira ler Shakespeare só sabendo o verbo to be, e acreditando que sua genialidade termina logo ali, no not to be. (em tempo, ele está citando Parmênides.)

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