sexta-feira, 5 de maio de 2017

A rejeição popular condena a reforma da Previdência?
Pesquisa Datafolha diz que 71% das pessoas estão contra a reforma, mas o governo pode, se souber operar nos bastidores políticos, sair vitorioso na votação
Maílson da Nóbrega - Veja.com
O governo Temer terá futuro difícil se a reforma não passar no Congresso 

Se a formulação da pergunta do Datafolha na pesquisa divulgada neste 1º de maio pela Folha de S. Paulo não tiver induzido os entrevistados, 71% se dizem contrários à reforma da Previdência. Se os deputados votam ouvindo as ruas, a reforma estará condenada.

Seria uma catástrofe. A súbita perda de confiança dos investidores na capacidade do governo de evitar o calote da dívida pública acarretaria fuga de capitais, forte desvalorização cambial e elevada pressão inflacionária. O Banco Central seria forçado a reverter a tendência atual de queda da taxa de juros. O desemprego manteria a trajetória de piora.

Acontece que o voto parlamentar nem sempre se guia pela vontade popular. Como dizia Edmund Burke, membro do Parlamento britânico na segunda metade do século XIX, o parlamentar, uma vez eleito, não está obrigado a seguir a opinião de seus eleitores. Deve votar com sua consciência, a orientação do partido e os interesses do país.

No Brasil, muitos parlamentares da chamada base aliada se movem por outra lógica. Alguns até podem ser influenciados pela pesquisa, mas não a maioria. Os da oposição e os deputados sindicalistas a usarão para justificar seu voto contra a reforma. Uns poucos que se elegem defendendo interesses dos aposentados já decidiram ser do contra desde o começo. E há os que apoiarão conscientemente a reforma, avaliando os efeitos políticos do fracasso.

O cardápio das demandas é vasto, desde a liberação de recursos de emendas parlamentares. Compreende também interesses fisiológicos: a eleição de um indicado para a diretoria de uma estatal ou para uma superintendência regional, o destravamento de um processo, a nomeação de um apadrinhado para um cargo em algum ministério, a escolha de um gerente de banco oficial e até a transferência de um funcionário para uma cidade de maior porte.

O que importa, aqui, é a capacidade do presidente e do grupo palaciano de identificar as demandas e atendê-las. É tarefa para profissionais que sabem mapear as demandas, mobilizar os órgãos e entidades para atendê-las e assim “conquistar” os votos. Isso existe. A reforma trabalhista ajudou, pois identificou o campo para a ação de convencimento.

Se os 296 votos a favor forem repetidos na Previdência (o que requer cuidadoso monitoramento), restariam apenas 12 votos para os 308 necessários à aprovação da respectiva emenda constitucional. Claro, é preciso uma margem de segurança para eventuais traições.

O governo Temer não terá futuro se a reforma da Previdência não passar. Tudo será feito para aprová-la. A votação só acontecerá quando houver absoluta confiança em seu sucesso.

Por tudo isso, o mercado financeiro e consultorias apostam, com razão, que a reforma da Previdência tem 70% de chance de ser aprovada.

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