segunda-feira, 17 de abril de 2017

Roberto Campos faria hoje 100 anos.

CULTURA
Roberto Campos, dos anos 40 aos 2000, expoente do pensamento liberal no país 
Economista e diplomota participa da criação da Petrobras na era Vargas, do Plano de Metas de JK e do governo Castelo, quando cria FGTS. Senador e deputado, ele faria 100 anos 
Adriana Lima
O Globo

Roberto Campos atuou em diferentes áreas durante a sua vida pública. Foi economista, professor, diplomata, embaixador, colunista, ministro, senador e deputado, sendo um dos expoentes do pensamento liberal no Brasil. De origem humilde, Roberto de Oliveira Campos era filho de um professor e uma costureira e nasceu em 17 de abril de 1917, em Cuiabá, no Mato Grosso, ficando órfão de pai aos 5 anos. A família mudou-se para Minas Gerais e ele, já rapaz, seguiu para Belo Horizonte, onde foi estudar Filosofia, em 1934.

Três anos depois, iniciou o curso de Teologia, mas desistiu de ser padre. "Menos mal. Não daria um bom religioso por causa da rebeldia intelectual", disse mais tarde. Estudou Economia na Universidade George Washington, nos Estados Unidos, fazendo pós-graduação em Harvard e Columbia.

Em julho de 1944, participou da delegação brasileira na Conferência de Bretton Woods, série de reuniões que aconteceram nos Estados Unidos, ainda durante a Segunda Guerra Mundial, das quais participaram 730 delegados de 44 nações aliadas, com o objetivo de reconstruir o capitalismo, estabelecendo regras financeiras e comerciais e evitando crises. Os encontros resultaram na criação do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird, o Banco Mundial) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), em meio às diretrizes de uma nova ordem econômica global sob a hegemonia do dólar. Como diplomata, também participou da criação da Organização das Nações Unidas (ONU).

Na década de 50, Roberto Campos colaborou com o presidente Getúlio Vargas (1951-1954). Em 1951, assessorou Vargas na elaboração do anteprojeto para a criação da Petrobras (fundada em 1953). Ele também foi um dos criadores do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (instituído em 1952 como BNDE, que ganhou o "S" de social na sigla em 1982, no governo de João Figueiredo). O economista também se notabilizou por ser um dos coordenadores, durante o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), da formulação do Plano de Metas, tendo sido presidente do BNDES de agosto de 1958 a julho de 1959. Foi ainda embaixador do Brasil em Washington durante o governo de João Goulart (1961-1964).

Após o golpe militar de 64, Roberto Campos tornou-se ministro do Planejamento do general-presidente Castello Branco e, junto com Octávio Gouvêa de Bulhões, titular da pasta da Fazenda, promoveu reformas na economia e no Estado brasileiros. Ações foram tomadas para o país voltar a crescer com taxas semelhantes às da segunda metade dos anos 50, ao mesmo tempo em que se pretendia equilibrar as contas públicas e reduzir a inflação. Entre as medidas, foram criados o Banco Central (BC), o Banco Nacional da Habitação (BNH) e o FGTS, e organizados o mercado de capitais e o sistema de arrecadação federal. Também foi adotada uma política salarial para segurar a inflação, além de ter sido instituída a correção monetária.

Na ocasião, Roberto Campos também participou da criação Instituto Nacional do Cinema. Durante o governo do general-presidente Ernesto Geisel (1974-1979), ele foi embaixador em Londres e, na volta, iniciou sua carreira parlamentar, elegendo-se em 1982 senador de Mato Grosso pelo PDS (1983-1990). Fiel ao seu partido, de sustentação do governo Figueiredo, votou em Paulo Maluf (PDS-SP) no Colégio Eleitoral, na escolha indireta que levou Tancredo Neves, o candidato da oposição a se tornar presidente eleito do Brasill. Depois, Roberto Campos, que viu suas teses liberais serem derrotadas na Assembleia Constituinte de 1988, elegeu-se deputado federal pelo Rio de Janeiro, em 1990, sendo reeleito em1994.

No processo de impeachment do presidente Fernando Collor, em 1992, o parlamentar, conhecido por seus críticos de esquerda como "Bob Fields", votou numa cadeira de rodas a favor do afastamento da Presidência daquele que se intitulara "caçador de marajás de Alagoas". Primeiro a votar por motivos de saúde na sessão histórica do dia 29 de outubro, o deputado foi festejado pelos parlamentares da oposição, que o abraçaram. Ele sorriu e não conseguiu disfarçar a emoção.

Roberto Campos era conhecido pelo humor corrosivo e por escrever bem. Em 1990, começou a assinar uma coluna no GLOBO. Ele era defensor do liberalismo, da economia de mercado, da inserção do Brasil no contexto da economia internacional, da globalização e da modernização das relações entre o Estado e a sociedade. Em 1994, lançou "A lanterna na popa", autobiografia com 1.500 páginas em que conta detalhes da convivência com John Kennedy, Margareth Thatcher, além dos presidentes brasileiros com os quais trabalhou.

Em outubro de 1999, Campos tomou posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), e em seu discurso abordou temas como a defesa do liberalismo, do capitalismo democrático, além de ter criticado o estatismo e o comunismo. Para o ex-ministro da Fazenda Francisco Dornelles (atual governador interino do Rio), Roberto Campos foi o maior expoente do pensamento liberal que o Brasil conheceu:

"Viveu toda a vida pensando no bem comum. Ocupou todos os postos que alguém pode ocupar no setor público, e em todos os lugares deixou uma marca profunda do seu trabalho e personalidade", disse ao GLOBO, na edição do dia 10 de outubro de 2001, um dia após a morte do economista, que se casou com Stella, teve três filhos e cinco netos.

Roberto Campos morreu aos 84 anos, no Rio, devido a um infarto agudo do miocárdio, quando estava dormindo em seu apartamento em Ipanema, na Zona Sul do Rio. O estado de saúde de Campos vinha se deteriorando desde que sofrera uma isquemia cerebral, em fevereiro de 2000. O sepultamento do economista foi no mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

"Foi um homem que esteve presente em todos os momentos importantes da história do Brasil no pós-guerra. Sempre polêmico, lutou pelos seus sonhos e se manteve coerente com seus princípios", disse o então presidente Fernando Henrique Cardoso ao GLOBO, na edição de 11 de outubro de 2001.
Liberal. Roberto Campos, economista, diplomata, político e escritor: na foto, aos 77 anos, faz referência ao livro “A lanterna na popa”

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