domingo, 16 de abril de 2017

O tamanho da roubança da Odebrecht
Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo
Marcelo Odebrecht depõe na Procuradoria-Geral da República

Qual o tamanho do prejuízo deixado pela Odebrecht e por suas irmãs da empreitada corrupta?

Para começar, Marcelo Odebrecht estimou as despesas com subornos em algo entre 0,5% e 2% da receita bruta anual de suas empresas. Isso daria, na média, gastos acumulados de R$ 6,8 bilhões, de 2006 a 2014.

No departamento de subornos da empresa, há registro de pagamentos equivalentes a R$ 6,7 bilhões (US$ 3,37 bilhões convertidos pelo dólar médio de cada ano, sem correção inflacionária), uns 1,2% da receita da Odebrecht no período. As contas batem, pois. Mas o destino dessa dinheirama ainda não apareceu todo nas delações.

Gastava-se em suborno cerca de 0,5% da receita até 2008. Nos anos do "Brasil Grande" do PT, o investimento em propina cresceria, chegando em 2012 a 1,7% da receita também crescente da Odebrecht.

Era o período das "campeãs nacionais", oligopólios de vários setores organizados e/ou financiados com auxílio do Estado. Nesses anos, empreiteiras gigantes se transformariam em conglomerados diversificados. Coincidência, apenas?

Essa aritmética simples serve para discutir efeitos ainda mais sérios da roubança. Primeiro, mostra quão ingênua é a crença de que "não falta dinheiro no governo, basta acabar com a corrupção".

Suponha-se que o suborno rendesse à Odebrecht um retorno extra e direto de 200% em saque do dinheiro público (para cada real de propina, a empresa arrancaria outros dois do governo).

Levando em conta os dados da planilha do suborno, seria um saque direto de R$ 13,6 bilhões em nove anos. Em um ano, o governo federal gasta R$ 1,3 TRILHÃO.

Sim, rouba-se dinheiro grosso, bastante para matar gente por falta de hospital ou a hipótese horrenda que se imagine. Mas não basta para dar jeito nas contas públicas.

O caso do prejuízo começa a ficar mais interessante quando se considera o que disse Emilio Odebrecht sobre a eficiência de sua empresa.

A Odebrecht não fazia engenharia nem se preocupava com eficiência no Brasil —ganhava contrato no grito do suborno ou do cartel. Tanto que os executivos aprendiam o que é concorrência viajando pelo exterior.

Os superfaturamentos crônicos e a ineficiência sistemática, perdas de produtividade em si, de resto devem ter "encadeamentos para a frente e para trás", espalhando custos extras pela economia inteira.

Se não há preocupação com custos, o resultado é preço mais alto para o consumidor e menos exigência de redução de preço de fornecedores da construção civil, muitos deles também grandes oligopólios ou cartéis.

Multiplique-se isso por várias empreiteiras. Considerem-se as empresas que não chegaram às vias de fato do suborno, mas dedicam energia a obter favores do governo, em vez de inovar. É uma desgraça registrada em bibliografia padrão de economia, mas raramente vista em encarnação tão grotesca.

O maior custo, no curto prazo, está à vista de todos: o efeito da crise político-policial sobre a economia.

O crime em série já causava tumulto institucional subterrâneo. Compravam-se leis de redução de impostos, projetos de obras descabidas etc. Parte da política econômica demente era também comprada.

Para piorar, a descoberta da extensão da roubança contribuiu para aprofundar o colapso recessivo de 2015-16.

A raiva e o prejuízo são incalculáveis.

Um comentário:

Marcos Diniz disse...

Esse país ainda vai cumprir seu ideal.
Um dia vai se tornar um....
Uma Imensa Siria!