quinta-feira, 13 de abril de 2017

A MEGA-DELAÇÃO INDUSTRIADA DA ODEBRECHT
Augusto de Franco

A única delação honesta e não industriada da Odebrecht parece ter sido a da secretária Maria Lucia Tavares

Foram ontem publicados vários vídeos com depoimentos de empregados e donos da Odebrecht. Eu assisti três ou quatro e não fiquei com uma boa impressão

Alguns depoimentos, como o do capo Emílio, me soaram solertes (vendeu a ideia de que ele e Lula tinham um relacionamento afetivo, de progenitores dedicados às carreiras de seus filhos e os olhos postos no desenvolvimento do Brasil, escondendo o fato de que eram comparsas de um mesmo esquema criminoso de poder). 

Os de Alexandrino, Valladares e Faria foram na mesma tônica: aparentaram ser senhores muito preocupados com o país e não se furtaram a dar até algumas lições de moral. Pareceu-me uma farsa. 

Há muito tempo estou alertando: está em curso um embuste. A mega-delação da empreiteira bandida é, na verdade, uma mega-operação de despistamento, um investimento na confusão. É claro que há verdades, assim como meia-verdades e mentiras nos depoimentos dos escolhidos para delatar - mas tudo misturado. Até o Diogo Mainardi foi citado pelo delator Henrique Valladares (um dos pilantras escolhidos para passar recado, mentindo com a verdade, assim como Marcio Faria da Silva e o próprio Emílio). É para misturar mesmo diversos tipos de crime e arrolar tanta gente que fique impossível responsabilizar os que realmente comandaram o esquema: a organização criminosa dirigente (a direção de facto do Partido dos Trabalhadores, comandada por Lula e seus assessores, Dirceu e seus sequazes, Palocci, Vaccari, Delúbio, Berzoini, Bargas e alguns outros: sim, a esta altura já sabemos os nomes de quase todos). 

Já que a Odebrecht tinha mesmo que delatar alguns, por que não envolver todos, conjurando a formação de um círculo de cumplicidade capaz, quem sabe, de garantir a impunidade, se não da quadrilha inteira, pelo menos de alguns? Os chefes da Odebrecht fizeram isso com o objetivo de assegurar a sobrevivência da empresa, celebrando uma espécie de acordo, formal ou informal (pouco importa), não de leniência, mas de conivência com as autoridades encarregadas da investigação (que, ansiosas para alcançar seus objetivos e mostrar serviço, aceitaram o jogo). Mas tudo isso é um absurdo. 

É um absurdo que Emílio não apenas esteja solto, mas livre para articular e industriar o depoimento de uma centena de comandados. É um absurdo que uma empresa centralizada tenha necessidade de recorrer ao depoimento de tantos delatores (como se os chefes não soubessem o que faziam seus subordinados): a única delação não planejada parece ter sido a da secretária Maria Lucia Tavares, que revelou a existência de uma organização clandestina dentro da Odebrecht: o Setor de Operações Estruturadas (que não era um mero departamento de propina, como se diz, e sim uma estrutura montada para financiar um projeto político criminoso de poder). 

É um absurdo que a Odebrecht, que não era uma empresa pagadora de suborno e sim um banco ilegal, um sistema financeiro completo para operar o dinheiro do crime e financiar a montagem de um Estado paralelo no Brasil, possa continuar sob o comando da mesma famiglia que construiu e administrou tudo isso durante tanto tempo.

Um comentário:

Anônimo disse...

DELAÇÃO INDUSTRIADA.

TAÍ QUE EU NUM SABIA DESSA.

JÁ OUVI FALAR DE:
- CABUETAGEM
- CHIBAR
- DEDAR
- ARRENEGAR
- MALSINAR