quinta-feira, 20 de abril de 2017

Mais um texto do meu amigo Carlos Aquino, em que expressa o seu profundo comprometimento com o exercício da advocacia.

NÓS, OS ADVOGADOS, E A INGRATIDÃO
Carlos Pessoa de Aquino*

No Romance do Advogado contam Pierluigi e Ettore Erizzo o seguinte episódio “O homem que fiz absolver de uma imputação de falência, o homem que me dizia: “Doutor, sou um homem acabado: não me importa a condenação, evite-me, somente, as galés!”, passa-me ao lado, fechado num automóvel luxuoso, e, se lhe é possível, nem me reconhece. O camponês que defendi no Tribunal do Juri, por um crime de sangue, traz-me uma cestinha de presente no dia do meu aniversário e fica a falar-me com um olhar de gratidão muito superior a qualquer palavra, que, ignorante, não sabe pronunciar”. 

Eis os contrastes da vida, os paradoxos da existência profissional e pessoal, as incertezas nas reações do próximo, as surpreendentes atitudes, os choques com as incompreensões ante o desrespeito ao trabalho encetado pelo profissional da advocacia. São as torpezas ante quem antes, lançara luzes sobre a escuridão que estava a ofuscar quem o ofende. Lembro-me de uma frase do inesquecível deputado federal Ulisses Guimarães... “O dia do benefício é a véspera da ingratidão”. Assim somos nós os advogados cuja trajetória foi muito bem traduzida em gráfico pelo querido amigo, poeta alagoano e Ministro do Superior Tribunal de Justiça Humberto Gomes de Barros no qual percorre todas as passadas da relação cliente – advogado, para ao fim e ao cabo asseverar, “Ganha-se um inimigo” pois o cliente, vitorioso, passara a deslembrar de suas fraquezas e a apagar qualquer resquício de gratidão. O diz, pelo desdém ante o causídico que antes consolara a consciência, socorrera o desvalido, solidarizara-se no desespero, amparara na provação, o ouvira segredar suas torpezas. “A ingratidão esquece o benefício. É folha fanada, que o vento leva”( Levi Carneiro no seu discurso de recepção, na Academia Brasileira de Letras ). 

Convive o profissional da advocacia, com as contingencias e as circunstancias inerentes a sua sofrida atividade, como um Cirineu atual, portando cotidianamente a cruz alheia. Como consolo, recolhe o dever cumprido, a consciência em paz, a verdade expressa nos seus estudos, na sua pertinácia, sensibilidade, ética, postura, firmeza de princípios, altivez, correção, inarredável capacidade de perceber as luzes a clarear os caminhos insondáveis que permeiam na trajetória processual com suas delicadas nuances e peculiaridades, mercê dos humores da lide, da sua marcha sinuosa, dos atos vis e da má fé que vez por outra assombram as lide, das suas armadilhas e incertezas quanto aos seus desfechos. 

Agregue-se a tudo, os honorários vis, incompatíveis com tanto esforço e tantas vicissitudes que inviabiliza na velhice usufruir o apetecido ócio, com dignidade, tranqüilidade e paz para transmudar-se em uma trajetória final incerta, sombria, duvidosa e inclemente. 

O que impele o advogado, o motiva a continuar, o combustível que o alimenta, vem a ser a fé para dia após dia, rentear o abismo e conseguir sobrepujá-lo com os toques do bem em seu coração como a honra, a dignidade e a solidariedade humana, com Deus em seu coração a mostrar-lhe vivamente a VERDADE e a VIDA!. Não temos vocação para grileiros, negocistas, financistas, materialistas, vendilhões. Tais aberrações não cabem em nossa sacrossanta profissão. Somos, em verdade, devotos de um ideário, tratamos de coisas divinas e humanas, paixões alheias, com o fel dos revezes da vida e dos processos com a sabedoria suficiente para recolher o néctar das vitórias e do reconhecimento da verdade pela defesa e pelo contraditório. Manejamos a ferramenta do conhecimento e do saber, da sensibilidade e experiência com a voz, a eloqüência, a inteligência e o aprendizado que colhemos em cada caso em cada lide. Escrevera com muita lucidez e propriedade Plínio Barreto em suas “Crônicas Forenses”, no Estado de São Paulo: “Se o amor da riqueza é, no advogado, maior que o amor da honra, troque de profissão. Procure outra, em que, para chegar à riqueza, não seja estranhável que se abandone a honra”. 

Enfim, o advogado está sempre a encarar as injustiças e as ingratidões, porém sem perder sua verticalidade, sua altivez e sua decência no caminho intangível de uma senda elevada embora permeada de abismos e precipícios, da crueldade de alguns, dos sórdidos interesses, das almas venais, mas com a dignidade dos foros da bela profissão, para com humildade absorver o cimo da glória. Nas menores causas, nas mais humildes, residem os maiores relevos, as densidades mais controversas a instigar os debates mais grandiosos. 

*Advogado militante, professor da UFPB. Academia Paraibana de Letras Jurídicas, Coordenador Regional Institucional do Instituto dos Advogados Brasileiros - IAB.

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