terça-feira, 25 de abril de 2017

Exportando bala...

Facção paulista é suspeita de roubo de US$ 40 milhões no Paraguai
Tráfico de drogas na fronteira com o Paraguai reforça atuação do grupo
JULIANA ARREGUY E TIAGO DANTAS
O Globo
Assaltantes fazem ataque a empresa de valores em Ciudad del Este, no Paraguai 

Autoridades paraguaias suspeitam que a facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) está por trás do roubo de US$ 40 milhões da transportadora de valores Prosegur em Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil. Na madrugada de segunda-feira, cerca de 50 assaltantes armados com fuzis e explosivos invadiram a empresa, que fica a quatro quilômetros da Ponte da Amizade, e levaram o equivalente a R$ 124,8 milhões no que está sendo considerado o maior roubo da História do Paraguai. Ao longo do dia, três suspeitos e um policial paraguaio foram mortos na fronteira entre os países. Ao menos dois homens foram presos. Policiais brasileiros localizaram carros, um barco, armamento pesado e malotes da Prosegur. Todos vazios.

Investigações feitas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público Estadual de São Paulo nos últimos anos reforçam as suspeitas da polícia paraguaia sobre o envolvimento do crime organizado no assalto à Prosegur. A atuação da facção paulista no Paraguai ficou mais visível em junho de 2016, depois do assassinato de Jorge Rafaat Toumani, de 56 anos, em Pedro Juan Caballero, também na fronteira com o Brasil. Conhecido como “o rei do tráfico”, Rafaat foi alvo de uma emboscada no centro da cidade enquanto dirigia uma caminhonete blindada. A proteção não foi suficiente para parar os tiros de metralhadora calibre ponto 50, o mais potente disponível em armamentos individuais.

Após derrubar o “rei do tráfico”, os criminosos paulistas teriam assumido o controle do tráfico de drogas na região, segundo o MP. Para os investigadores, a disputa pela rota da Bolívia e Paraguai foi o estopim para a guerra com o Comando Vermelho (CV), que causou a morte de mais de cem presos em cadeias do Norte e Nordeste no início deste ano.

Após a morte do Rafaat, o PCC consolidou o monopólio do tráfico de drogas na região, que é muito mais estruturado e lucrativo do que as rotas do Norte do país — afirma o procurador do Ministério Público de São Paulo Márcio Sérgio Christino, responsável por investigar o crime organizado nos últimos anos. — A facção tem uma atividade principal: o tráfico de drogas. Mas o resto, a facção faz de acordo com a oportunidade: assaltos, sequestros.

Para Christino, o roubo da Prosegur no Paraguai tem as mesmas características que assaltos que ocorreram no interior de São Paulo e no Nordeste do Brasil nos últimos anos:

É o mesmo modus operandi: grande número de pessoas, uso de armamento pesado, que não tem parâmetro em qualquer polícia, talvez só no Exército, uma estratégia de cerco e fuga. Não é qualquer quadrilha que consegue fazer um mega-assalto como esse.

PREJUÍZOS DE R$ 135 MILHÕES
Policial revista carro encontrado com suspeitos do assalto à transportadora de valores no Paraguai

Ao investigar cinco roubos a transportadoras de valores que ocorreram em São Paulo em 2016, o Departamento de Investigações Sobre o Crime Organizado (Deic) identificou a presença da facção paulista em três casos, que, somados, causaram prejuízos de ao menos R$ 135 milhões. Onze pessoas foram presas após ataques à Prosegur, em Santos e em Ribeirão Preto, e à Protege, em Campinas.

No caso mais recente, em 5 julho do ano passado, assaltantes trocaram tiros com a polícia, incendiaram veículos e explodiram um transformador de energia antes de fugir com cerca de R$ 51 milhões da Prosegur de Ribeirão Preto. A polícia estima que cerca de 40 pessoas participaram da ação em Ribeirão Preto, divididas em 15 veículos. Um morador de rua e um dos suspeitos morreram no tiroteio. Oito pessoas foram denunciadas pelo crime, incluindo dois vigias que teriam fornecido informações privilegiadas à quadrilha. O roteiro se repetiu com pequenas mudanças nos demais crimes, segundo a investigação.

Durante coletiva de imprensa na tarde de segunda-feira, o delegado Fabiano Bordignon, chefe da Polícia Federal em Foz do Iguaçu, disse que policiais dos dois países vão continuar trabalhando para tentar encontrar outros suspeitos. Ele concordou que roubos como o da Prosegur precisam de planejamento grande e não pode ser feito por qualquer quadrilha.

A identidade dos suspeitos mortos e presos ontem após trocar tiros com a polícia brasileira em Itaipulândia, às margens do lago de Itaipu, não foi revelada. O ministro do Interior do Paraguai, Lorenzo Lezcano, também participou da entrevista e disse ter evidências de que a quadrilha era formada por brasileiros. Testemunhas do crime contaram à polícia paraguaia que os criminosos falavam português.

Ainda na segunda-feira, o ministro do Interior da Bolívia também mostrou preocupação com a atuação de criminosos brasileiros em assaltos a transportadoras de valores. Em março, um caminhão blindado da Brinks foi roubado no país e um brasileiro foi apontado como mandante.
Suspeito de roubar 40 milhões de dólares de banco no Paraguai é morto em troca de tiros em Itaipulândia, no Paraná 

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