quarta-feira, 19 de abril de 2017


Desafogo econômico 
EDITORIAL da Folha de São Paulo 

O índice de atividade econômica apurado pelo Banco Central finalmente deu sinal mais claro de que a brutal recessão ficou para trás.

Mediu-se expansão de 1,3% em fevereiro, acima do que esperavam os especialistas. Vigorosa para um único mês, a taxa deve ser comemorada, mas com certa cautela.

Embora eficiente em antecipar a tendência da economia, o indicador do BC não costuma ter boa pontaria quando se trata de prever a intensidade das variações.

Além do mais, a cifra foi afetada por mudanças metodológicas adotadas pelo IBGE na apuração do desempenho do comércio e dos serviços neste início do ano.

Apesar das dúvidas a respeito do real ritmo da recuperação, há consenso de que o Produto Interno Bruto tenha crescido no primeiro trimestre. A alta esperada para o ano, porém, não passa de 0,4%.

Nesse quadro, cálculos de economistas do mercado indicam que o BC poderia acelerar ainda mais o ritmo de corte dos juros. Mesmo que seja essa a escolha, a questão mais premente no campo monetário é a resposta dos bancos.

Até agora, o custo dos empréstimos para empresas e consumidores tem caído muito menos que os juros do BC. A manter-se tal padrão, a recuperação econômica será mais lenta e menos vigorosa.

Não parece haver atitude prática e imediata a ser tomada por governo e BC a esse respeito. Mas serão importantes sinais de que a agenda da redução das taxas bancárias continua na pauta oficial.

Um exemplo foi o aperfeiçoamento das normas dos cartões de crédito definido ao final do ano passado, ao que tudo indica bem-sucedido no objetivo de proporcionar juros menores —embora ainda elevadíssimos— aos usuários.

Tais mudanças não se darão sem resistência dos bancos. Em dezembro, o próprio ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, fez uma cobrança pública ao mercado.

Há mais a fazer, decerto. Acredita-se que boa parte da dificuldade em cobrar menos nos empréstimos esteja relacionada ao elevado endividamento das empresas, que impõe custos e riscos aos credores.

Não se sabe, entretanto, se o governo dispõe de um diagnóstico preciso sobre o problema. Outros fatores a serem atacados incluem o custo dos tributos e a excessiva concentração bancária.

Enfim, as autoridades econômicas precisam buscar soluções criativas dentro da ortodoxia. A reversão da crise está em curso —falta o desafogo do crédito ao consumo e ao investimento.

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