sexta-feira, 7 de abril de 2017

Josias de Souza

Presenciei dias atrás uma cena curiosa. Apaixonado pelo PT, um professor de ciência política convidou-me para visitar uma de suas classes. Pediu-me que fizesse um contraponto à aula que havia preparado sobre a “criminalização das forças de esquerda no Brasil”. Ao chegarmos, havia um grupo de estudantes ao redor de um computador. Na tela, uma animação com cenas de prisões e depoimentos de enroscados na Lava Jato. O professor indagou: “Vocês fizeram esse vídeo?.” E o dono do lap-top: “Não, foram vocês que fizeram.” Achei que minha presença era desnecessária. O professor já dispunha do seu contraponto.

Petistas e simpatizantes têm a mania de olhar com distanciamento típico dos scholars os escândalos produzidos sob Lula e alimentados sob Dilma. Os deputados petistas Paulo Pimenta, Wadih Damous e Paulo Teixeira, por exemplo, preparam uma representação a ser protocalada na Procuradoria da República contra agentes da Polícia Federal e o juiz Sergio Moro. Acusam-nos de ceder armas, uniformes, carros e aeronaves da PF para a produção do filme ''Polícia Federal – A Lei É para Todos'', com estreia prevista para julho.

A iniciativa dos deputados pode ser útil. Transparência nunca é demais. Entretanto, Pimenta, Damous e Teixeira talvez fizessem um bem a si mesmos se desperdiçassem um naco de tempo para fazer uma introspecção. Levando a experiência a sério, cada um deles talvez passasse a enxergar no espelho a imagem de um omisso. Indo mais fundo no processo de auto-exame, os parlamentares verão materializar-se diante de seus olhos uma obviedade: os escândalos dignos de filmes não surgem por geração espontânea. Eles nascem da perversão.

Os deputados talvez percebam que, além da representação contra os servidores-amigos do filme sobre a Lava Jato, a realidade exige deles uma outra atitude. Um gesto consciente e, a essa altura, já meio tardio. No caso do PT, a conjuntura já não admite que os filiados se mantenham exilados no conforto de sua omissão política. A cena intima-os a reagir. O primeiro passo é o abandono da cômoda e tola retórica de que o problema do PT são os outros.

O segundo passo é a caída em si, a descoberta de que o problema não é o filme sobre a Lava Jato, mas o enredo que inspira a filmagem. Prestes a renovar sua direção, o PT está em ebulição. O momento parece propício para uma rediscussão de certas práticas. Há sempre a alternativa de lavar as mãos e continuar detestando o filme que ainda não chegou às telas. Se preferirem esse caminho, os deputados não devem reclamar quando alguém lhes disser: “Foram vocês que fizeram!”

Nenhum comentário: