sexta-feira, 17 de março de 2017

Temer só arrecadou 6% dos recursos em chapa com Dilma
MÔNICA BERGAMO
Folha de São Paulo
Michel Temer e Dilma Rousseff, então vice e presidente, respectivamente, no Palácio do Planalto

A conta bancária aberta pelo presidente Michel Temer para receber recursos para a campanha eleitoral de 2014 foi abastecida com depósitos que correspondem a apenas 5,67% do total de R$ 350,4 milhões arrecadado pela chapa dele e de Dilma Rousseff.

Naquele ano, os dois concorriam à reeleição –ela para presidente, ele para o cargo de vice-presidente.

De acordo com dados levantados pela Folha no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), a conta "Eleição 2014 Michel Miguel Elias Temer Lulia Vice-Presidente", controlada pelo então vice, recebeu R$ 19,8 milhões numa agência do Banco do Brasil.

ECONÔMICO
Deste total, R$ 16,5 milhões foram destinados a diretórios do PMDB e a candidatos a governador, deputado e senador do partido nos Estados. Os repasses foram feitos em dinheiro ou na forma de material de propaganda.

Sobrou pouco, ou cerca de R$ 3 milhões, para que Temer arcasse com despesas diretas de sua própria campanha.

Esses valores correspondem a cerca de 1% do total de gastos declarados pela chapa Dilma/Temer ao TSE.

Temer ainda conseguiu economizar: no fim da campanha, sobraram R$ 92,2 mil em sua conta, que ele transferiu para o PMDB.

Uma das estratégias dos advogados de Temer para livrá-lo de uma condenação no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), onde a chapa Dilma-Temer é investigada sob acusação de abuso de poder, é a de dizer que as contabilidades dos dois candidatos eram separadas.

"Ele não pode ser responsabilizado por eventuais irregularidades em uma arrecadação da qual não participou", diz o advogado do presidente, Gustavo Guedes.

A conta em nome de Temer reforçaria a tese ao mostrar que, independentemente de valores, ele coletava recursos de forma separada.

MISTURADO
A defesa de Dilma, que nega irregularidades na arrecadação, considera inadmissível a tese de separação da chapa. A prestação de contas, segundo o advogado Flávio Caetano, era única.
A conta separada de Temer não provaria nada, já que ela seria apenas uma das quatro contas bancárias abertas pela campanha. E os recursos depositados em nome do vice não fizeram frente a gastos dele e de sua equipe.

Várias despesas do peemedebista foram bancadas pelos recursos arrecadados nas outras três contas bancárias abertas pela campanha. Só em viagens de avião foram gastos cerca de R$ 2 milhões.

Há ainda o registro de pagamentos de salários de assessores e de hospedagens para pessoas do staff de Temer, como Eliseu Padilha, hoje ministro da Casa Civil.

A defesa do presidente reafirma que não contesta os gastos mas que eles não o tornam responsável por arrecadação da qual não participou.

RECEITA
A conta controlada por Temer foi aberta no Banco do Brasil no dia 10 de julho de 2014, com saldo zero. O primeiro depósito, de R$ 1 milhão, foi feito em 14 de julho, pelo PMDB, com dinheiro da empreiteira Andrade Gutierrez, que assinou um cheque nesse valor destinado à campanha do vice.

A doação já foi investigada pelo TSE: num primeiro depoimento dado ao tribunal, o ex-presidente da construtora Otávio Azevedo disse que os recursos doados eram irregulares e que tinham sido destinados a Dilma Rousseff.

Ao se descobrir que o recurso tinha ido para Temer, ele mudou a versão. Em novo depoimento, disse que a doação era regular.

LISTA
No total, 26 empresas e pessoas físicas fizeram doações a Temer. A maior contribuição, de R$ 6 milhões, foi feita pela JBS S.A.. A segunda maior contribuição foi da empreiteira OAS, que depositou R$ 5 milhões.

Há entre os contribuintes três pessoas físicas. Entre eles, Eraí Maggi Scheffer, primo do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, e maior produtor de soja do Brasil.

No começo do ano, ele foi nomeado por Temer para o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do governo, o Conselhão.

Os irmãos Ana Carolina Borges Torrealba Affonso e Rodrigues Borges Torrealba, do grupo Libra, doaram R$ 500 mil cada um. O conglomerado administra um terminal do porto de Santos, área em que Temer sempre teve influência.

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