quarta-feira, 8 de março de 2017

Para quem sabe ler
Ruy Castro
Folha de São Paulo
Empresário Marcelo Odebrecht, preso na Lava Jato, chega à sede da Justiça Federal, em Curitiba (PR)

Um programa de fomento à leitura nos presídios de vários Estados do Brasil prevê que, a cada livro lido pelo preso na cela —de preferência, um romance—, ele seja recompensado com quatro dias de redução da pena. O preso pode participar do projeto até doze vezes por ano, o que significa que, se ler um livro por mês, ao fim do ano terá 48 dias de pena reduzida. Mas, calma, não é assim tão fácil —não pode fazer como Woody Allen, que aprendeu leitura dinâmica para ler "Guerra e Paz" e, depois de devorar as 1.200 páginas do livro em 20 minutos, comentou: "Tem a ver com a Rússia".

Para provar que leu a obra, o preso tem de escrever —à mão— uma pequena dissertação a respeito, que será avaliada por pedagogos, psicólogos e terapeutas. Não se espera que o fulano se torne de repente um Antonio Candido ou Otto Maria Carpeaux em matéria de crítica literária, mas seu comentário será analisado segundo seu conteúdo, clareza de argumentos e até caligrafia. Entre os romances mais lidos e resenhados pelos presos nesse projeto, estão "Crime e Castigo", de Dostoievsky, "Dom Casmurro", de Machado de Assis, e, pode crer, "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa.

Um dos Estados que adotam este programa é o Paraná. Isso significa que, um dia, ele estará ao alcance de vários presos que, atualmente, honram as celas de Curitiba. Você sabe quem são: lobistas, doleiros, publicitários, laranjas, um pecuarista, ex-diretores da Petrobras, ex-tesoureiros do PT, ex-deputados federais, ex-senadores, ex-ministros de Estado e outros convidados da Operação Lava Jato. E, claro, Marcelo Odebrecht. Além dos que estão para chegar.

Digo um dia porque o programa só é acessível aos presos já condenados.

E não é só isso. Para se beneficiar dele, o condenado também precisa saber ler.

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