segunda-feira, 27 de março de 2017

Olho no lance
Ruy Castro
Folha de São Paulo
Cena do filme "Casablanca", com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman

Quando olhamos para trás na história, tendemos a acreditar num certo determinismo -se as coisas aconteceram de tal jeito é porque era assim que tinham de acontecer. Mas Nelson Rodrigues se perguntava como seria se Jesus Cristo tivesse morrido aos quatro anos, de coqueluche. Não teríamos o calvário, nem a cruz e nem a ressurreição e, provavelmente, a história do Ocidente seria diferente.

Várias vezes, a história esteve perto de ser alterada e só por sorte não foi. Em 1942, ao escolher um ator para o papel do aventureiro Rick Blaine num filme em preparo, chamado "Casablanca", a Warner pensou em escalar Ronald Reagan. Ninguém se opôs. E, assim, até perto das filmagens, Reagan foi Rick -até que um ser de luz soprou ao ouvido da Warner que Rick só podia ser Humphrey Bogart. O resto você sabe.

Em 1954, o desconhecido Ferreira Gullar mandou para uma gráfica os originais de um livro de poemas, "A Luta Corporal", para publicá-lo por conta própria. O revisor da gráfica, diante de versos como "Au soflu i luz ta pom-/ pa inova'/ orbita/ FUROR/ tô bicho/ 'scuro fo/ go/ Rra", achou que estava tudo errado e se dispôs a "corrigir" o texto. Gullar só o impediu aos 45 do segundo tempo, e por pouco não teríamos o livro que reinventou a poesia brasileira.

Em fins dos anos 60, no interior da Alemanha, a faxineira do hotelzinho viu um hóspede desabado num sofá da recepção, dormindo e roncando, em pleno dia. A mulher se condoeu das unhas enormes do rapaz. Pegou sua tesourinha e, com cuidado, aparou-as até o sabugo. Quando ele acordou, viu aquilo e quase chorou. Mas, como era o grande Baden Powell, foi em frente e deu o seu show de violão naquela noite do mesmo jeito.

Tudo isso para dizer que precisamos ficar atentos. Há sempre alguém à nossa volta tentando mudar a história -contra nós.

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