sábado, 11 de março de 2017

Líquido e incerto
Editorial Folha de São Paulo

Em sua terceira visita aos canteiros da transposição do rio São Francisco em três meses, o presidente Michel Temer (PMDB) inaugurou os 217 km do ramal leste do empreendimento. Com cinco anos de atraso e custo de R$ 9,6 bilhões, mais que o dobro do previsto, a obra ainda carece do ramal norte, que só ficará pronto em 2018.

Temer sabe da popularidade da transposição no Nordeste e evita reconhecer que ela saiu do papel quando o PT ocupava o Planalto. "A paternidade é do povo brasileiro e do povo nordestino", disse nesta sexta-feira (10).

Supostamente os canais vão melhorar a vida de 12 milhões de pessoas. O dado de propaganda soa capcioso, pois essa é em realidade toda a população que vive na área.

Nada assegura que a água chegará às suas torneiras, mesmo porque não há plano bem definido de gestão do recurso hídrico transposto. Na ausência de uma rede capilarizada de distribuição, é mais provável que o grosso dele beneficie só grandes usuários de irrigação.

A saúde do próprio rio se acha em questão. A coleta de esgotos em sua bacia é precária, para não falar do tratamento dos dejetos. Margens e matas ciliares continuam a ser ocupadas, se não destruídas, e não há projeto para sua recuperação em grande escala.

O Ministério Público aciona a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco e do Parnaíba) para que sejam enfim retomadas dezenas de projetos de revitalização do São Francisco prometidos pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2006.

O principal reservatório do Velho Chico, Sobradinho, está com menos de 15% de seu volume útil. E a previsão é que as chuvas no Nordeste fiquem abaixo da média pelo menos até abril.

O semiárido já entra em seu sexto ano de precipitação aquém do normal, a maior seca registrada em um século. Parte da culpa cabe ao fenômeno El Niño, que veio com força entre 2014 e 2016.

Se a mudança climática se agravar, o Nordeste pode caminhar rumo à aridez completa. O governo, porém, prossegue aferrado às obras faraônicas, como a transposição, e às medidas paliativas e clientelistas, como a distribuição de água por caminhões-pipa, aos custos de cerca de R$ 1 bilhão por ano à União.

É líquido e certo que a transposição do São Francisco melhorará a vida de parte dos nordestinos, mas não da maioria. Tampouco pode ser encarada como solução definitiva —a qual só virá com plano mais abrangente de saneamento, adaptado às condições regionais e não aos interesses eleitorais de quem estiver no poder.

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