terça-feira, 21 de março de 2017

21 de março de 2017
Rodrigo Constantino
De todas as bandeiras que mudei após muita leitura, reflexão, amadurecimento e a chegada da minha filha à adolescência, e que fizeram com que alguns me “acusassem” de conservador em vez de liberal, talvez a mais importante seja a questão do aborto. Tenho um texto antigo do qual não me orgulho nada, com uma defesa utilitarista da prática do aborto até os 3 meses de gestação. Hoje vejo como isso é errado e perigoso, ao banalizar a vida humana. Abre-se uma porteira, passa uma boiada.

Não é por acaso que a banalização do aborto virou a grande bandeira feminista e da esquerda em geral. A Planned Parenthood, criada por Margaret Sanger, uma eugenista que queria reduzir a quantidade de negros na América, tornou-se o grande instrumento dos “progressistas”, sustentada com recursos públicos ainda por cima, o que é indecente e imoral. Feministas falam em aborto hoje como quem fala de cortar o cabelo ou a unha, arrancar um “parasita” do ventre da mulher, já que a “liberdade de escolha” seria absoluta (e o direito à vida do bebê, pelo visto, inexistente).

Hoje, no Dia Internacional da Síndrome de Down, esse aspecto nefasto da eugenia “progressista” fica mais evidente ainda. Leio um texto no ILISP, do final do ano passado, sobre um belo vídeo produzido pela CoorDown, organização italiana de defesa das pessoas com Síndrome de Down, em resposta à carta de uma grávida que havia recebido a notícia de que seu filho nasceria com a síndrome. O vídeo teve sua veiculação na televisão francesa proibida pelo estado. Como assim?! A que ponto chegou a “civilização” ocidental materialista e racionalista?

Recomendo a quem não viu ainda que veja o vídeo. É emocionante. Não sou sentimentalista, não gosto de coisa jeca e apelativa, não consigo chorar em novelas, no “Caldeirão do Huck” ou coisas do tipo. Mas foi impossível controlar as lágrimas com esses depoimentos sinceros de quem tem a síndrome e luta contra o preconceito, pela vida e o direito de ser feliz:
Como não ficar tocado por essas declarações? E agora vem o pior: segundo uma pesquisa, mencionada pelo ILISP, mais de 90% dos bebês diagnosticados com a Síndrome de Down durante a gestação são abortados na França. 92%!!! O leitor tem consciência do que isso significa? É o fim de uma civilização que mereça tal nome. É a barbárie. É a vitória da eugenia. Qual o próximo passo? Abortar o feto porque não é do sexo desejado? Interromper a gravidez porque a cor dos olhos não agrada? Matar o bebê porque a estatística diz que ele terá maiores chances de doenças no futuro?

“É fácil falar, Rodrigo, quero ver se for com você!”, pode rebater algum leitor. Então vamos lá, nos despir em público. Quando minha mulher ficou grávida da nossa filha, há 15 anos, confesso que pensava diferente, e talvez cometesse um ato hediondo desses se descobrisse que ela não era “normal” ou “perfeita”. Felizmente nada disso foi preciso. Não tive que fazer uma escolha terrível dessas, ainda bem.

Mas minha mulher está grávida novamente. E agora tudo mudou. Eu mudei. Recebemos semana passada o resultado do exame genético, com alguma apreensão, admito. Até porque tenho uma “translocação” que aumenta a probabilidade de gerar um filho com Down. Aguardamos ansiosos o resultado. Mas seguros de uma só coisa: não havia decisão a tomar. Ela já estava tomada. É o nosso filho ali, e nada mais importa. Ele será muito amado de qualquer jeito.

Felizmente, uma vez mais, o destino nos sorriu, e o resultado da trissomia 21 deu negativo. O bebê, meu filho, é normal ao que tudo indica. Não sou hipócrita. Não nego o alívio, a felicidade, a gratidão. Acho terrível quem faz o contrário, que é banalizar uma condição dessas, negar a própria existência do conceito de normalidade para não machucar os diferentes ou “especiais”. Ninguém deseja um filho com uma síndrome dessas e todas as limitações que ela traz, os cuidados especiais que ela exige, a preocupação extra que ela demanda, como se não bastassem as normais (como pai de adolescente sei do que estou falando).

Mas isso não quer dizer, em absoluto, que o filho será um fardo, um estorvo, um problema, e não fonte de muita felicidade, de amor, de carinho e compaixão. Eu vinha me preparando psicologicamente para uma contingência dessas do destino, pois sei que nada é garantido nessa vida, que tudo pode, num piscar de olhos, mudar. Adoto a “visão trágica da vida” de que falava Miguel Unamuno.

As perdas e os sofrimentos são inerentes à condição humana, e a “era da felicidade perpétua”, alimentada pela falsidade e artificialidade das redes sociais, tem tentado jogar isso para baixo do tapete, fingindo que as coisas não são assim. A fuga da realidade, ao tentar negar a angústia inexorável dos homens, gera apenas mais angústia, em minha opinião. A geração “Mertholate que não arde” não está preparada para a vida como ela é. E quebra no primeiro sinal de dificuldade.

Para certas coisas, é verdade, ninguém está preparado, e só enfrentando para saber. São as provações que testam nossa fé, nossas convicções mais profundas, nossa coerência. Em Rasselas, livro para adultos, Samuel Johnson fala de um “sábio” que vendia desapego, com uma filosofia de vida “leve”, sem fortes emoções. No dia seguinte, o jovem Rasselas volta para visitar o “sábio” e o encontra devastado, retirado em seu silêncio. “O que aconteceu?”, quis saber. Sua filha tinha adoecido e falecera. “Mas e aquela conversa toda de desapego?”, perguntou o jovem. Toda teoria vai por água abaixo nessas horas, não é mesmo?

Eis o que eu queria falar aqui: se abandonamos a premissa de que toda vida humana, ainda mais em sua origem, é digna de respeito, então mergulhamos num caminho extremamente perigoso e flertamos com o abismo da eugenia, que torna tudo descartável. Tenho muito receio dessa ambição prometeica, dessa arrogância digna de um Frenkeinstein, e dessa busca desmedida pela “perfeição” por meio da engenharia genética. Essa revolta contra Deus e as contingências do destino é o sintoma de uma era doente.

O que precisamos numa data dessas é reforçar o milagre que é a vida humana, lembrar que toda vida humana merece respeito e dignidade, especialmente em tempos em que o ovo da tartaruga parece ter mais valor do que o embrião humano. Escutei o coração do meu filho batendo, vi suas feições se formando, e o Antonio já tem até nome, o mesmo do meu avô: como alguém pode reduzir isso tudo a um simples “amontoado de células” sem importância?

Devemos aproveitar a oportunidade para mostrar também que mesmo a Síndrome de Down não precisa ser sinônimo de uma vida desperdiçada, que é perfeitamente possível superar barreiras e limitações e trabalhar, namorar, ser feliz como qualquer outro ser humano.

Todos aqueles que apostam na vida humana estão de parabéns. Muitas vezes vemos pessoas com tudo supostamente normal, em ordem, mas que detestam a vida, que só conseguem sentir ódio, vontade de destruir, de subverter os valores morais, a própria civilização. Nunca estão satisfeitos com nada, e às vezes têm quase tudo. A esses só posso lamentar tal postura. Mas me sinto na obrigação de reagir ao seu niilismo, a essa doença moral que pretende arrastar tudo de mais valioso que temos para dentro do mesmo buraco do desespero e da falta de sentido completa. Procurem ajuda profissional, mas deixem a sociedade em paz!

O ato de ter um filho e assumir a responsabilidade de educá-lo, de prepará-lo para a vida, para ser um indivíduo autônomo, é um dos mais belos atestados de confiança em nossa espécie, na vida humana. Apesar de tudo. A despeito dos riscos, da degradação de valores que vemos à nossa volta, dos eventuais sofrimentos que inevitavelmente teremos. É uma aposta na vida, e ela merece ser sempre celebrada. Não há nada mais valioso do que uma vida humana!

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