sexta-feira, 3 de março de 2017

Desabafar num jornal considerado golpista não é coisa de escritor sério
Tati Bernardi
Folha de São Paulo
Ganhei o prêmio Bertha Lutz do Senado Federal e dividi a opinião de amigos. Alguns disseram "vai lá buscar, claro, Senado é do povo" e muitos outros me alertaram "nem pintada de vermelho, são todos uns golpistas, recuse o prêmio". Fui salva por uma reunião da Globo, emissora na qual trabalho, na exata data e horário da cerimônia.

Sim, a Globo. Outra questão sempre muito tensa nas mesas de bar (não que eu vá a muitas mesas de bar, na real não vou a nenhuma, mas me refiro à galera mais festiva-opinativa-intelectual que me cerca). Para eles eu jamais deveria trabalhar para uma empresa golpista cheia de golpistas que só disseminam pelo mundo o ódio a todos que não são golpistas.

Mas escrever sobre isso aqui neste jornal, considerado golpista por tantos amigos, não é um desabafo digno de um escritor sério. E escrever de um Macintosh novo, com tanto PC velho precisando de uma família, deveria encerrar de uma vez por todas a minha carreira. Sim, tenho ar-condicionado: julguem-me.

Moro num bairro que, pela quantidade de gente batendo panela na época que ainda se batia panela, pode ser considerado golpista. Olho da minha janela a faculdade PUC, povoada de garotos golpistas, filhos de pais e mães que trabalham em bancos golpistas, firmas golpistas, hospitais golpistas, escolas golpistas, multinacionais pra lá de golpistas, e me pergunto se hoje vai ter barulho infernal de batuque carnavalesco. Mas pensar isso é ser golpista, querer sossego individualista em um ambiente público chamado cidade é ser golpista.

Enfim, aceitei o prêmio, mas não estarei presente. Muitos amigos acharam que eu não deveria nem aceitar, uma vez que apenas feministas são agraciadas e eu sou apenas uma garota formada em marketing (aff, golpista!), que escreve filmes de grande bilheteria (virge, golpista!), livros falando de si mesma (nuuussa, golpista!) e vendeu sua alma a toda uma mídia diabólica. Mas eu me recusei a recusar.

Primeiro eu pergunto a vocês, pessoas tão maravilhosamente isentas de qualquer contato com golpistas: como pagam as contas? Onde guardam dinheiro? Leem notícias? Nunca se divertem com a TV ou um filme comercial? Respiram? Ou estão nuas em uma praia deserta no Uruguai vivendo de ideais? Depois, desafio você, tão pleno de certezas protegidas pela discrição, a aturar todo santo dia a opinião do amigo internauta te xingando de velha, histérica, vaca, "alguém engravida essa mulher que ela para de falar" e mesmo assim continuar escrevendo todo santo dia. Eu só acredito em militante que trabalha.

Eu admiro você, jamais vendido, jamais golpista, concentrado em seu quinto mestrado em pau-brasil e há 11 anos escrevendo um roteiro sem nenhuma verba ou incentivo ou produtor ou distribuidor ou emissora ou patrocínio (ou história). Roteiro esse que vai viajar o mundo, mas também as comunidades ribeirinhas e vai arrebatar as únicas 47 pessoas que vão tomar conhecimento da sua existência. Me empresta esse avô rico aí e seremos melhores amigos.

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