quinta-feira, 23 de março de 2017

5 anos sem o gênio Chico Anysio.

Em sete décadas, Chico Anysio deu vida a mais de 200 personagens hilariantes
Ator, diretor, roteirista, cantor, pintor e escritor, o artista genial, que morreu há cinco anos, teve trajetória única com um tipo de humor que ainda faz rir as novas gerações
Marina Branco
OGlobo

Centenas de personagens, nove filhos, seis mulheres, uma legião de jovens humoristas apadrinhados, alguns desafetos e milhões de admiradores em 65 anos de carreira. Chico Anysio viveu uma vida superlativa, em tudo prolífica, e, mesmo tendo passado a maior parte dela no Rio, sempre se vangloriou de ser nordestino. Comediante brilhante, observador aguçado do comportamento humano, Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho só teve a oportunidade de vir para a cidade onde construiria sua carreira no humor graças à dor. Aos 7 anos, o garoto cearense, nascido em 12 de abril de 1931, em Maranguape, viveu um episódio traumático: o pai, Francisco Anysio de Oliveira Paula, dono de uma empresa de ônibus, perdeu tudo num incêndio. Da noite para o dia, a família de alto padrão foi jogada na pobreza.

- Meu pai sempre foi chamado de coronel, mas não agia como os coronéis do sertão. O charuto era uma constante, dando-lhe um jeitão de Getúlio Vargas. Um dia, a garagem de ônibus pegou fogo. Não havia seguro. Acordamos pobres. Eu não sabia de nada. Nem da abastança anterior nem da penúria que viria - descreveu num depoimento publicado em seu site oficial.

Com Chico e três irmãos, a mãe, Haydée Viana, veio tentar a sorte no Rio, enquanto o pai ficou no Ceará para se reerguer como construtor de estradas. A entrada na cultura carioca foi pelo futebol, paixão que herdara do pai, presidente do Ceará Sporting. Mas não foi o Botafogo, "clube-irmão" do time cearense, que o seduziu. Por ironia, ele virou vascaíno, mas viveu ao lado da sede do Fluminense, onde jogou profissionalmente por um curto período.

- É um absurdo eu torcer contra o Fluminense. Aliás, não consigo. O máximo que atinjo é não torcer a favor - dizia.

Na sede do clube, Chico frequentou, nos tempos dos estudos nos colégios Zaccaria e Anglo-Americano, os primeiros bailes. Graças a um erro de dois anos no registro do ano de seu nascimento, aos 16 ("e corpo e cara de 13"), já podia dirigir, entrar — e deixar perplexos seguranças e porteiros — em boates e beber, sem ser perturbado, pois oficialmente tinha 18 anos. O lado ruim? Pequeno, "inacreditavelmente magro", pesando 42 quilos e calçando 41, teve de se alistar no Exército, mas, ao ficar na reserva, pôde mergulhar de cabeça no sonho que já começara a tomar forma: a carreira no humor. O cearense preparou um número com 32 vozes que o fez ganhar vários concursos de programas de calouros, como o "Papel carbono", de Renato Murce, e a "Hora do pato", apresentado por Jorge Cury, ambos na Rádio Nacional.

Aos 17 anos, ele fez um teste na Rádio Guanabara e ficou em segundo lugar em locução. Trabalhou em outras rádios, como a Mayrink Veiga, até o início da década de 1950. Com 19 anos, transferiu-se para a Rádio Clube de Pernambuco, em Recife, onde permaneceu por um ano, antes de voltar ao Rio. Em 1952, retornou à Mayrink Veiga como autor e diretor de vários programas, atuando em atrações estreladas por Haroldo Barbosa, Antônio Maria e Sérgio Porto.

Ainda nos anos 50, conheceu sua primeira mulher, a comediante Nancy Wanderley, com quem teve Lug de Paula. A segunda foi a ex-vedete Rose Rondelli, e da união nasceram Nizo Neto e Rico. Com a atriz Alcione Mazzeo teve o ator Bruno Mazzeo. No casamento com Regina Chaves nasceu Cícero. Chico adotou ainda André Lucas e Duda Anysio. Falava bem das "ex", mas mantinha um travo amargo na boca quando se referia a uma delas, Zélia Cardoso de Mello, ministra da Economia do governo Fernando Collor de Mello, com quem teve dois filhos, Vitória e Rodrigo. A união durou seis anos. Em 1997, chegou a mudar-se para Nova York para viver com Zélia. Poucos meses depois, estava de volta, separado. "Meu casamento foi um erro", resumia, mudando de assunto. Dos seis casamentos, o que mais durou foi o último: 13 anos, com Malga, 39 anos mais jovem. O humorista costumava dizer que era um sujeito legal e que o homem que fica casado por 50 anos com a mesma mulher "não sabe nada sobre união".

Segundo o site "Memória Globo", seu primeiro, de mais de 200 personagens, foi o Professor Raimundo, que nasceu na Rádio Mayrink Veiga, em 1952, e que levou para a TV Rio cinco anos depois. Paralelamente ao seu trabalho no rádio, o humorista, começou a escrever para o cinema e a atuar nas chanchadas da Atlântica. Em 1959, entrou no ar com "Só tem tantã", também na TV Rio, que mais tarde veio a se chamar "Chico Anysio Show". O programa surpreendeu:

- Foi um sucesso retumbante! Mexeu com a vida do país. Os aviões e até as sessões de cinema mudaram de horário. Foi a primeira vez que se viu coisa semelhante no mundo, um só artista fazer um programa inteiro na televisão - disse ao site o artista, que era o responsável pelas caracterizações dos personagens.

Em 1968, a convite do diretor José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, o humorista levou seus personagens para a Rede Globo, onde permaneceu por mais de 40 anos estrelando programas como "Chico Anysio Show", "Linguinha x Mr. Yes", "Chico City", "Escolinha do professor Raimundo", "Estados Unidos de Chico City", "Zorra Total", além de participações no "Fantástico", no qual aparecia de cara limpa e de smoking. Também cantava e compunha, tendo lançado dez discos; escreveu 24 livros, pintava e atuou como locutor e comentarista esportivo.

Em 1996, o ator sofreu um acidente e fraturou a mandíbula, o que o deixou fora do ar por todo o ano de 1997, quando foi para os Estados Unidos fazer um tratamento para recuperar-se, voltando em 1998. Nos anos 2000, o artista continuou fazendo humor mas passou a atuar em novelas, como "Sinhá Moça" (2006), "Pé na jaca" (2006) e "Caminho das Índias" (2009). Em maio de 2009, foi internado com pneumonia, tendo alta dias depois. No ano seguinte, fez uma cirurgia de retirada de parte do intestino grosso, voltando a ser internado em 2011 por 110 dias. Na última entrevista concedida ao GLOBO, em maio de 2011, logo após voltar para casa, ele agradeceu aos fãs pelas orações.

- Sou franciscano e, agora, acredito muito em São Jorge, que me ajudou nessa empreitada. Mas não sou católico, não sou ateu. Tem horas em que não acredito em Deus. Quando vejo a Etiópia, não acredito. Acredito na força enorme dos que rezaram por mim. O povo do Brasil rezou por mim. O povão para o qual trabalho. Essa foi a grande força que eu tive - disse o humorista, cuja saúde se deterioraria nos meses seguintes, culminando com uma internação em dezembro.

A partir de então, Chico Anysio travou uma batalha para superar as complicações decorrentes de problemas pulmonares causados por anos de tabagismo. A luta terminou no dia 23 de março de 2012, vítima de falência múltipla de órgãos, no Hospital Samaritano, em Botafogo. Seus fãs foram se despedir do criador de tantos personagens no Teatro Municipal, onde foi realizado o velório. Seu corpo foi cremado no dia 25, no Cemitério do Caju.

Professor Raimundo. Na foto, o seu primeiro personagem, criado em 1952: sucesso até hoje 

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