sexta-feira, 10 de março de 2017

10 razões para o PT não celebrar a liderança de Lula nas pesquisas
Apesar da euforia que contagiou as fileiras petistas, a posição de Lula para a disputa de 2018 não é tão favorável quanto parece
José Fucs
Estadão

As últimas pesquisas para as eleições de 2018, que mostram Lula como líder isolado na preferência dos entrevistados, reacenderam as esperanças do PT de que ele possa voltar nos braços do povo a vestir a faixa presidencial.

O presidente do PT, Rui Falcão, não perdeu tempo em afirmar, como um torcedor apaixonado, que Lula é o “favorito” no pleito do ano que vem.

A tropa de choque do PT, ainda inconformada com o impeachment de Dilma e a perda do poder, depois de quase 14 anos de hegemonia em Brasília, deixou de lado por alguns instantes as acusações contra a Lava Jato e o “golpe” para pontificar nas redes sociais a respeito do destino glorioso reservado a Lula, caso ele se torne de novo candidato à presidência.

Um grupo formado por cerca de 400 “artistas e intelectuais”, boa parte dos quais nem os brasileiros mais cultos tinham ouvido falar até então, lançou um manifesto, depois transformado em abaixo assinado digital, em defesa da candidatura de Lula, “como forma de garantir ao povo brasileiro a dignidade, o orgulho e a autonomia que perderam (sic)”.

Pela euforia que pipocou na seara petista, com os resultados das pesquisas, a impressão que se tem é de que bastará ao partido anunciar a candidatura de Lula que a vitória em 2018 será inexorável. Parece predominar entre os petistas a ideia de que os brasileiros saberão reconhecer os “sublimes serviços” prestados por Lula à Nação, alçando-o mais uma vez ao Palácio do Planalto.

Mas, ao contrário da narrativa que o PT e seus aliados pretendem difundir, com o apoio de seus porta-vozes na internet, a posição de Lula nas pesquisas pode não ser tão favorável como se imagina por aí. O fato de Lula aparecer hoje com mais intenções de votos do que os demais nomes incluídos nos levantamentos está longe de significar que ele tem chances reais de ganhar a eleição. Os próprios números das pesquisas, se analisados com cautela, revelam que o cenário é mais nebuloso do que parece à primeira vista.

Confira abaixo dez razões que deveriam ser levadas em conta antes de o PT celebrar a liderança de Lula nas pesquisas eleitorais para 2018.

1. Falta muito tempo para o pleito
Pesquisas realizadas a cerca de dois anos das eleições, que misturam candidatos declarados como Lula com nomes que sequer deverão concorrer, como Michel Temer, Carmen Lúcia, Sérgio Moro, Joaquim Barbosa e Roberto Justus, pouco ou nada significam. Elas podem até provocar muita espuma na mídia, mas confundem mais do que esclarecem a opinião pública;

2. Lula pode ser condenado e ficar inelegível
Réu em cinco processos, quatro dos quais ligados à Lava Jato, Lula poderá ficar inelegível, pela Lei da Ficha Limpa, se for condenado em segunda instância pela Justiça. Mesmo que até as eleições, no final de 2018, Lula seja condenado só na primeira instância, será difícil ele superar o golpe durante a campanha;

3. Muita gente apoia a prisão de Lula
Para alguém que almeja vencer a disputa para a presidência da República, como Lula, é preocupante que 45,3% da população, segundo uma pesquisa recente, desejem vê-lo no xilindró. Ao mesmo tempo, outra pesquisa mostrou que o juiz Sérgio Moro, alvo de críticas contundentes e incessantes de Lula e de seus advogados, tem uma aprovação de 65%, a maior entre as autoridades brasileiras – um sinal inequívoco do apoio popular a Moro e à Lava Jato, que estão no encalço de Lula;

4. Lula é líder absoluto em rejeição
A taxa de rejeição de Lula é, de longe, a maior entre todos os nomes incluídos nas pesquisas. Entre 44% e 66% dos entrevistados, conforme o levantamento, jamais votariam em Lula. Com esses índices de reprovação, ele pode até ir para o segundo turno, mas dificilmente ganhará a eleição. Outro ponto importante: um candidato conhecido como Lula dificilmente consegue baixar os índices de rejeição;

5. Em 2016, o PT foi esmagado nas urnas
Com a derrota histórica sofrida pelo PT em todo o País em 2016 – quando encolheu 60% em número de votos, com uma fatia de apenas 6,7% dos votos válidos –a população mostrou plena consciência do envolvimento de Lula e do partido no petrolão e em outros escândalos de corrupção. Também mostrou que os eleitores responsabilizam o PT pelo descalabro na economia, o que complica a ideia do partido de insistir nas fórmulas mal sucedidas adotadas a partir do segundo mandato de Lula e aprofundadas no governo Dilma;

6. A reprovação aos políticos tradicionais é grande
As pesquisas de opinião demonstram uma grande rejeição aos políticos tradicionais de uma forma geral, não apenas no Brasil, mas em outros países, como mostra a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Eleito duas vezes presidente e eterno candidato do PT desde a redemocratização – exceto nas duas disputas em que Dilma foi a representante do partido – Lula encarna como poucos o perfil do político tradicional, com o agravante de ser acusado de envolvimento no petróleo e em outros casos de corrupção;

7. O “Fora Temer” não pegou como o PT queria
Desde o impeachment de Dilma, o PT e seus aliados tentaram, sem sucesso, “carimbar” o governo Temer, no Brasil e no exterior, revelando a distância entre os anseios da população e as propostas do partido. O “Fora Temer” ficou restrito ao PT e a seus aliados. A PEC do teto dos gastos, contra a qual o partido se insurgiu, foi aprovada sem dificuldades pelo Congresso Nacional. O mesmo aconteceu com a reforma do ensino médio, motivo de ocupações de escolas pelo País afora por grupos organizados vinculados ao partido;

8. Os militantes do PT representam maior fatia do apoio a Lula
Nas pesquisas espontâneas, nas quais os entrevistados dizem os nomes de seus candidatos preferidos por iniciativa própria, que são as que mais interessam, a fatia de Lula na preferência popular varia de 9% a 17%, conforme o levantamento. Isso representa, se tanto, apenas os militantes e apoiadores que acompanham o PT em qualquer circunstância;

9. Ainda não houve a definição dos concorrentes
Mesmo nas pesquisas estimuladas, em que os entrevistados escolhem o nome de sua preferência de uma lista, a fatia de Lula alcança no máximo 35%. Como seus concorrentes não estão definidos e já se sabe que Lula é candidatíssimo em 2018, apesar sua candidatura ainda não ter sido oficializada, não se trata de um desempenho excepcional. O PSDB, por exemplo, aparece nas pesquisas com três possíveis candidatos – Geraldo Alckmin, que declarou recentemente seu interesse em se candidatar, além de Aécio e Serra;

10. A maioria dos eleitores não definiu seu candidato
Até o momento, cerca de 60% dos eleitores, de acordo com as pesquisas espontâneas, ainda se declaram indecisos e não definiram seus candidatos, o que indica indefinição do pleito e deixa espaço para o surgimento de novas lideranças e propostas.

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