domingo, 12 de fevereiro de 2017

Quando a idiotia atinge o limite, você adentra o universo da temática da apropriação cultural...

Apropriação Cultural?!
Daniela Guaraná

Antes de falar em apropriação da cultura africana, seria legal que as pessoas olhassem para um mapa. É um artigo simples, cheio de cores, que você pode encontrar acessando o google ou a papelaria mais próxima. Nele, é possível ter uma compreensão menos reducionista do mundo que nos cerca. A África é um continente imenso, com diversos povos muito distintos entre si que compõem sua população. Esses povos possuem diferentes histórias, traços físicos e elementos culturais. E acho que vocês já perceberam o que quero dizer aqui. Pegar tudo isso e jogar numa mesma caixa, com uma etiqueta escrito “cultura africana” parece um ato de generalização no mínimo questionável. Antes de começar a discussão sobre "apropriação", há que se saber melhor quais povos usavam quais peças de vestuário, por que razão e onde essas peças surgiram (o turbante, por exemplo, não tem origem conhecida, mas sabe-se que já era utilizado no Oriente Médio antes mesmo do surgimento do Islamismo).

Além disso, talvez fosse bom compreender também a importância da troca na sobrevivência da espécie humana. Como retrata o Alexandre Versignassi:

"Para confeccionar um turbante colorido, você necessita de plantações de algodão na Índia, maior produtora mundial do fio, e operárias no Vietnã, que transformam o algodão cru em malha usando máquinas fabricadas na Rússia. Se a malha requerer elastano, um subproduto do petróleo inventado por um francês, você vai precisar de uma plataforma de petróleo construída na Coreia, talvez instalada na Nigéria por uma empresa brasileira que contrata engenheiros angolanos e usa brocas alemãs para tirar o óleo lá de baixo. No fim, a malha é pintada com pigmentos à base de chumbo extraído na Mongólia e chega ao porto de Santos num navio Chinês."

Pois é. Trata-se de muita gente envolvida, de diversos cantos do planeta. E isso é bom. O isolacionismo nunca foi algo positivo no nosso desenvolvimento. Pelo contrário, ele foi responsável pela não-evolução, pela involução e até mesmo pela extinção de certas espécies de hominídeos. A interdependência, por sua vez, permitiu não apenas a sobrevivência, mas a explosão evolutiva do homo sapiens que nos trouxe até aqui. Não fosse pelo intercâmbio cultural, nós possivelmente seríamos uma nota no livro de biologia de alguma outra espécie (not really, mas acho que vocês entenderam).

Tendo isso em vista, acredite: o intercâmbio cultural pode ser uma ferramenta na luta contra o racismo, não o contrário. A inclusão de elementos culturais distintos dos nossos nos permite ter uma visão de maior aceitação dessas culturas, dissipando o preconceito que sempre existiu na história da humanidade. Quando este acesso não é permitido, a ignorância impera - e todos nós sabemos aonde a ignorância pode levar.
Por fim, parem de bobagem. O tweet que circula questionando uma mulher com câncer de se apropriar de uma cultura africana por usar um turbante é de um mau gosto terrível. Eu não sei se vocês repararam, mas a mulher em questão fez isso porque perdeu o seu cabelo. Deve estar desesperada por um pouco de auto-estima, alguma coisa que a faça sentir-se bonita, elegante, apresentável. Não é regra, mas cabelos bonitos são importantes para a maioria das mulheres e ser careca não é um desejo muito comum. Cá entre nós, ela já tem que se preocupar com se manter viva. Acho que é um pouco demais pedir que ela se preocupe também em não ferir a sensibilidade de gente que demonstra mais preocupação em parecer consciente do que em realmente contribuir para fazer do mundo um lugar melhor, não é mesmo?

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