sábado, 18 de fevereiro de 2017

Procuradores querem cancelar benefícios de Paulo Roberto Costa
MARIO CESAR CARVALHO
GABRIELA SÁ PESSOA
Folha de São Paulo
Paulo Roberto Costa, deixa a sede da Polícia Federal em Curitiba em maio de 2014

Três meses depois de ser dispensado da tornozeleira eletrônica, o empresário Paulo Roberto Costa recebeu a notícia de que pode acabar preso por até oito anos. Isso se o juiz Sergio Moro aceitar um pedido do Ministério Público Federal, registrado no último dia 7 de fevereiro.

O procurador Deltan Dellagnol, responsável pelas investigações da Lava Jato em Curitiba, quer endurecer a pena de Costa e seus familiares e "desconsiderar" os benefícios que eles ganharam por colaborar com as apurações, entregando as engrenagens do esquema de corrupção na Petrobras. A informação foi antecipada pelo site de notícias "BuzzFeed".

O valor do conteúdo dos depoimentos à Justiça, porém, não será afetado. A lei brasileira que criou a delação premiada prevê que, caso o delator perca os benefícios por mentir, tudo o que revelou continua válido e pode ser usado em ações penais.

O ex-diretor de abastecimento da Petrobras foi o primeiro na Lava Jato a delatar em troca de punições mais leves. Em 2014, ficou cinco meses preso. Depois, cumpriu um ano em prisão domiciliar no Rio. Hoje, já sem a tornozeleira, sua única obrigação é prestar quatro horas semanais de serviços comunitários até novembro de 2019.

ETERNO RETORNO
Os fatos que podem complicar o réu remetem ao seu primeiro encontro com a Lava Jato. O Ministério Público Federal afirma que o executivo e seus familiares "impediram e embaraçaram" as investigações na manhã de 17 de março de 2014, quando a operação cumpria seus primeiros mandados.

Paulo Roberto Costa orientou as filhas -Arianna Azevedo Costa Bachmann e Shanni Azevedo Costa Bachmann- e o genro Marcio Lewkowicz, marido de Arianna, a ocultar provas da Polícia Federal naquela data.

Os investigadores também afirmam que a família Costa mentiu "diversas vezes" em seu interrogatório judicial -por isso, descumpriu as exigências legais dos acordos de colaboração com a Justiça.

O Ministério Público Federal elencou contradições nos depoimentos dos réus sobre os acontecimentos daquele 17 de março, dia em que a PF cumpriu um mandado de busca e apreensão na casa de Paulo Roberto Costa.

Na ocasião, enquanto a polícia estava na casa do ex-diretor da Petrobras, Lewkowicz e as irmãs Costa foram até o escritório do executivo, de onde retiraram documentos e dinheiro em espécie.

Costa relatou que entregou discretamente a Arianna as chaves da Costa Global Consultoria, sua empresa, e pediu que ela buscasse lá R$ 50 mil.

Depois, contou outra história em seu acordo de delação premiada: pediu que ela retirasse de lá duas planilhas US$ 10 mil e R$ 100 mil.

Os procuradores apuraram outra contradição, desta vez envolvendo as contas bancárias das filhas do executivo. Shanni e Arianne disseram, inicialmente, não ter contas em seu nome no exterior.

Shanni relatou outra versão em seu depoimento no acordo de delação premiada. Disse que quando o pai saiu da Petrobras pediu os passaportes dela, da irmã e dos maridos das duas para abrir contas nas Ilhas Cayman.

PIONEIRO
Costa revelou dados cruciais para o desdobramento da Lava Jato. Contou que as empreiteiras pagavam de 1% a 3% de propina sobre o valor dos contratos com a Petrobras. Essa quantia era dividida entre PT, PP e os executivos da estatal.

Ele confessou que sabia do esquema porque foi indicado ao cargo de diretor de abastecimento em 2004 pelo PP, um dos partidos da base do primeiro governo Lula. Permaneceu nessa posição até 2012 e, ao longo desses anos, recebeu apoio do PT e do PMDB. Também foi o primeiro a assumir que recebeu dinheiro da Odebrecht em contas na Suíça.

Com o acordo de delação, Costa devolveu a R$ 79 milhões que estavam depositados em contas secretas na Suíça e nas Ilhas Cayman, um paraíso fiscal no Caribe. Ele também perdeu bens que somam R$ 4,9 milhões, como um terreno no litoral do Rio, uma lancha e um jipe Land Rover Evoque.

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