domingo, 12 de fevereiro de 2017

O que é MPB? Onde vive? De que se alimenta?
SensoIncomum

Na Discussão Musical Brasileira, a MPB está sob revisionismo, relevando-se que não era a unanimidade que se imaginava. Afinal, o que é MPB?

“Não usar a sigla MPB em hipótese alguma”: este foi o recado deixado pelo escritor e biógrafo Ruy Castro para o editor de uma revista que o contratou para escrever sobre música brasileira. Não posso dizer com certeza o que motivou o autor de Chega de Saudade – a história e as histórias da bossa nova a se preocupar com detalhe aparentemente tão insignificante, mas posso imaginar. Então imaginemos.

Quando foi criada, em meados da década de 60, a sigla tinha um significado definido: era, basicamente, a música que se fazia na casa dos pais da Nara Leão. Jovem da classe média-alta carioca, Nara promovia festas no famoso apartamento do edifício “Champs-Elysées” em Copacabana. Entre uma bebericada de tequila sunrise e um flerte com um broto, cantava-se bossa nova, sambas e canções com influência de ritmos regionais brasileiros. Sempre com letras cheias de críticas sociais foda, claro. Ali nascia a MPB.

Artistas da Zona Sul, filhinhos de papai, socialistas, prédio com nome de bairro de Paris, música engajada… talvez esteja aí o motivo pelo qual conservadores e liberais xinguem muito no twitter só de ouvir falar no gênero, frequentemente associado à esquerda universitária. Já foi mesmo, a ponto de organizarem uma passeata contra a guitarra elétrica em 1967 (Sério! Olha lá a foto que ilustra este artigo). Porém, pouco depois, a MPB já abarcava coisas tão diversas quanto Mutantes e Tom Jobim, Raul Seixas e Paulinho da Viola, Odair José e Ernesto Nazareth. Hoje, então, a coisa degringolou: cantou em português e não é fado, já é MPB. O resultado disso é que, assim como aconteceu com a palavra “fascista”, o significado da sigla ficou tão amplo que esvaziou-se de sentido. Então, conservador amigo, dá o dedinho aqui e vem fazer as pazes com a música brasileira que o tio vai ficar feliz. Tem pra todos os gostos.
ABRE PARÊNTESE:
Recentemente a facebookosfera entrou em mais uma das suas profundas discussões do tipo “biscoito ou bolacha”, daquelas que duram um dia mas dão a impressão que vão mudar os destinos de todas as humanidades do universo: seria a música popular de Cartola, Noel Rosa e Radamés Gnattali, inferior à música erudita de Villa-Lobos, Carlos Gomes e Camargo Guarnieri? Como diz a velha máxima: música, só vendo. Então ouçam com seus próprios olhos e me digam o que acham. Uma dica para o caso de você ser do século passado como eu: tem links nos nomes dos compositores.

Comparar música popular e erudita é como comparar um prato de bife à milanesa da sua avó com outro de vieiras desidratadas sobre creme de agrião ao molho de tinta de lula do René Redzepi. Ambos são feitos para comer, mas cada um tem funções espirituais completamente diferentes. Enquanto um nos leva ao que há de mais transcendente, outro nos aproxima do que temos de mais íntimo. O Addagietto da 5ª Sinfonia de Mahler pode revelar outra dimensão da existência. Mas só um sujeito desdentado cantando “tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com minha dor” vai produzir o efeito emocional que ajudará você a passar por aquele pé na bunda sem pensar em arrancar os próprios olhos com uma navalha cega.

Diz a lenda que uma vez levaram Villa-Lobos pra conhecer a música do morro. A certa altura alguém gritou: “Cartola, toca um sambinha seu aí”. Villa-Lobos ouve a canção em silêncio e, quando o sambista termina, dispara: “Tá tudo errado, mas tá maravilhoso”. Villa-Lobos era um cara legal.


Como bem disse Tom Martins, também colunista deste Senso Incomum: “Enquanto o conservador brasileiro desdenha do samba, do choro e da bossa nova, o conservador americano coloca “Wave” na lista de standards eternos do jazz. Não conheço conservadores americanos desdenhando do blues por acharem que BB King, Robert Johnson e Muddy Waters não são gênios.”

Concordo que a palavra “gênio” é usada sem muito critério. Parafraseando Ariano Suassuna, a mesma palavra não pode definir o sujeito que faz uma sinfonia, uma piadinha na internet, a Pietá ou um funk ostentação. Mas há critérios objetivos para diferenciar música popular mal feita da música popular sofisticada. Aposto que ninguém vai negar que a distância artística entre Cartola e Villa-Lobos é bem menor do que entre qualquer um dos dois e Chimbinha. Se bem que…


É evidente que boa parte da música brasileira é chata pra cacete, rasa, metida a chique e não tem nada de genial – especialmente o tipo que faz sucesso nos barzinhos onde um sujeito com cara de uspiano toca aquele repertório Anacarolinavercillogonzaguinhaloshermanos. Mas como definir Nazareth, Gnattali, Jobim, Cartola, Noel senão como gênios? Não fossem indivíduos com extraordinárias capacidades intelectuais, notadamente as que se manifestam em atividades artísticas (valeu, Houaiss!), tropeçaríamos em similares por aí. A única diferença entre eles e os eruditos é que, enquanto uns produzem alta cultura, os outros produzem cultura popular. Genialmente.

Diferente das artes plásticas, onde a técnica se perdeu e qualquer pote de merda é considerado arte, ainda há como separar, na música, o que é popularesco do que é sofisticado. Algo parecido acontece no cinema e na literatura onde alguma técnica é imprescindível. Um grande problema da direita, e que a esquerda sabe explorar muito bem, é o desdém pela cultura pop (leiam The Crisis in the Arts: Why the Left Owns the Culture and How Conservatives can Begin to Take it Back do Andrew Klavan, pfv!)

Quem me indicou este livro, aliás, foi Alexandre Borges, que escreveu um texto sensacional defendendo que a música “Não deixe o Samba Morrer” é na verdade um hino conservador. Entre outras coisas diz: “temos que separar a legítima reverência pela alta cultura ocidental, da qual o Brasil é um contribuinte pouco relevante, de um elitismo afetado e incapaz de enxergar méritos, quando existem, na cultura popular”. Eu não resumiria melhor meu ponto.

A cultura pop bem feita pode levar o sujeito comum à alta cultura. Quantos moleques não foram estudar mitologia através do Star Wars ou Senhor dos Anéis? Quantos não chegaram à grande literatura através de gibis ou desenhos animados? Eu fui um. Alguém disse recentemente que, enquanto o Omelete for o site de cultura pop mais lido do Brasil, não vamos chegar muito longe. É verdade.

Tem coisa boa sendo feita por aí que não foi sequestrada pela leirouanetização das artes. Precisamos de um “Omelete” feito por pessoas com nossos valores, afinal, um deles é não passar a vida falando sobre política. Tentarei fazer isso aqui como colunista do Senso, mostrando um pouco do que está sendo produzido, mas fica escondido aí nas internétes da vida. Então tira esse pince-nez, afrouxa a gravata e vem tomar um sol aqui na cultura pop. O Chesterton não vai fugir da sua estante.

FECHA PARÊNTESE

Epílogo

Sempre achei uma bobagem essa coisa de dizer que há um gênero musical superior. Não porque ache que não há arte superior (claro que há, ora porra!). Minha implicância é que o gênero descreve uma parte muito pequena da obra musical. Mas, vá lá!, se o sujeito diz não gostar de samba, de mambo, de house ou hip-hop, ainda podemos delimitar esses estilos de uma forma mais concreta. Mas e a MPB? Da forma como é entendida hoje significa, para alguns, aquela estética USP-barzinho. Pra outros, praticamente toda a música popular ocidental cantada em português. É exatamente por isso que eu sugeriria, assim como Ruy Castro para o seu editor: “não usar a sigla MPB em hipótese alguma”. Nem pra defender, nem para atacar. Música popular brasileira é do balacobaco. MPB é uma merda.

Um comentário:

Anônimo disse...

Aprendi a teoria dos conjuntos (não aquela que o Professor Pessoa ensinava)ouvindo os Águias de Barbalha. Os caba só tocavam Beatles e todo mundo gostava.
Ninguém se preocupava com MPB.
Depois, muito depois, foi que apareceu RIBA VOZ E VIOLÃO.