terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O chihuahua do Serrador
Carlos Andreazza
O Globo

Eike ouviu a expressão ‘empresário do PT’ — e compreendeu que poderia ser um. Mais: entendeu que era necessário se tornar um. Um título comprável

Eike Batista se vendeu, por anos, como empreendedor que queria distância do Estado. Em outubro de 2002, disse: “A mentalidade do empresário brasileiro é jogar sempre (o risco) para os outros. A maioria só entra em grande negócio se o governo estiver por trás.”

O homem que declarava esta pérola do liberalismo era o mesmo que, em 2001, atento ao colapso elétrico, vislumbrara no Plano Prioritário de Termelétricas de FHC a chance de se dar bem. Surgia a Termoluma, alimentada por gás que a Petrobras venderia abaixo do valor de mercado e sustentada com o compromisso de que a estatal e o governo do Ceará comprariam — por cinco anos, com preço mínimo estabelecido — a energia gerada pela usina.

Tal conjunto artificial de garantias logo abriria as portas do BNDES — portas que ficariam escancaradas por cerca de dez anos, e pelas quais escoariam, à margem de critérios técnicos, alguns bilhões em empréstimos ao Grupo X.

Capitalismo de Estado
O contrato entre a termelétrica e a Petrobras foi assinado em março de 2002 — com a presença de FHC — sem que fosse, contrariando a praxe, submetido à aprovação da diretoria da estatal.

Em 2005, para estancar o prejuízo, a Petrobras — já sob a gestão petista — compraria a Termoluma. Eike detinha 51% e investira apenas US$ 1,5 milhão no empreendimento. Ele e os sócios o venderam por US$ 137 milhões, depois de já haverem embolsado cerca de 100 milhões.

Empresário do PT
Eike chegara a 2001 sem maiores relações com políticos. Logo entendeu, porém, que a vida ficaria fácil se as cultivasse. Ele já conhecia o caminho quando posou de empreendedor puro. Trilhara-o para desembaraçar a usina. Mas foi no mês seguinte, novembro de 2002, ao receber uma rataria de petistas, que se obcecou pela ideia de ser querido em Brasília.

Lula fora eleito, e havia uma dívida de campanha. A súcia seria direta: o partido precisava de dinheiro. Foi quando Eike ouviu a expressão “empresário do PT” — e compreendeu que poderia ser um. Mais: entendeu que era necessário se tornar um. Um título comprável — e que consistia em investimento. Aquilo se converteu em meta. E ele doou. A maior parte por fora.

Abuso de autoridade
A Operação Eficiência, de 2017, talvez não existisse se Eike e Flávio Godinho tivessem sido pegos na Toque de Midas, de 2008, que desbaratou o esquema de corrupção armado, a partir de 2004, no governo de Waldez Góes, para que a MMX ganhasse a licitação da Estrada de Ferro do Amapá.

Para se proteger da ação da PF, a EBX contratou o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos. 

Quatro dias depois, como produto de uma reunião entre Lula, Gilmar Mendes, Tarso Genro e Nelson Jobim, anunciou-se um pacto por uma nova lei contra o abuso de autoridade; porque se atualizam os renans, mas a agenda permanece a mesma.

Lobby
A parceria entre Eike e Lula se fortaleceria durante o governo Dilma, sobretudo em função do Porto do Açu, que abrigaria o estaleiro da OSX, mais uma empresa forjada artificialmente nos moldes da política de conteúdo nacional petista. Para tal fim, a reabilitação do Fundo da Marinha Mercante faria com que um empréstimo de 2,7 bilhões de reais desaguasse, em 2011, na conta da companhia.

O facilitador Amaury Pires, então diretor do Fundo, fora fundamental para que o financiamento saísse. Ele chamava Lula de “o instituto”.

O destino da bolha
Dilma visitou o Açu em abril de 2012. O Grupo X já estava quebrado, tragado pela insolvência da petroleira OGX, e só poderia ser salvo pelo mesmo governo que o inflara. 

Os tempos, porém, eram outros. Em seu discurso, ainda assim, a presidente definiu Eike como “tipo especial de empreendedor”, “que delimita o seu sonho de uma forma extremamente ambiciosa.”

Gestava-se o plano de convencer os cingapurianos da Jurong a transferir ao Açu o estaleiro que erguiam no Espírito Santo. Seria a última chance da EBX. Em janeiro de 2013, Lula — com Pires — visitou o porto de Eike. Dez dias depois, o facilitador telefonaria ao embaixador brasileiro em Cingapura pedindo que marcasse um encontro de Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento, com os controladores da Jurong. Isto mesmo: um agente privado propunha a agenda de um ministro de Estado.

Dois dias depois, o próprio Pimentel telefonou. Na primeira semana de março, ele e Guido Mantega, como se representantes do Grupo X, receberiam diretores do estaleiro — e a operação só não foi adiante porque o conteúdo das tratativas vazou.

O escândalo serviria de pretexto para que o governo — afogado pela virada da maré na economia — abandonasse Eike a seu real tamanho, o de uma pasta de dente revolucionária nunca lançada.
A história do Brasil nos últimos 15 anos está no livro “Tudo ou nada”, de Malu Gaspar, obra de que fui editor, publicada em 2014. Há um filme ali — um thriller sobre as relações entre público e privado no país, que prescinde dos desdobramentos da Lava-Jato, a solução fácil. 

Só precisa de um roteirista.

Um comentário:

Anônimo disse...

TAÍ UM NEGÓCIO QUE PARA DÁ ESCREVER (E GANHAR DINHEIRO)UM ROTEIRO QUE SE CHAMARÁ:

O PINGO NO X

SUBTÍTULO:

O I DA QUESTÃO

JÁ PENSOU SE AINDA TIVESSE O CINE ÉDEN, PARA OS CABA VER O CARTAZ TABULETA DA CALÇADA DA MERENDINHA.