terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Juiz que pode julgar Lula e Dilma já tornou ex-presidente réu
Jailton de Carvalho 
O Globo
O juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal de Brasília

Vallisney de Souza Oliveira é responsável por operações Zelotes, Greenfield e "Cui Bono?"

O juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal de Brasília, poderá ser o responsável por julgar os ex-presidentes Luis Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e o ex-ministro Aloizo Mercadante, no inquérito em que eles são acusados de obstrução de Justiça, caso o Supremo Tribunal Federal (STF) atenda à recomendação do relatório da Polícia Federal e envie o inquéritoos autos para a Justiça Federal. Vallisney é responsável por operações de grande impacto, como Zelotes, Greenfield e “Cui Bono?”, e já tornou Lula réu em duas ações penais.

A Zelotes, iniciada em 2015, apura a venda de decisões do Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), do Ministério da Fazenda. Em dezembro de 2016, o juiz aceitou uma denúncia contra Lula e e um dos seus filhos, Luís Cláudio Lula da Silva, entre outros investigados. Vallisney já havia tornado o ex-presidente réu em outubro, em uma ação que investiga supostos favorecimentos à Odebrecht.

O magistrado também foi o responsável pela Operação Métis que, em outubro de 2016, prendeu policiais legislativos do Senado, acusados de tentar atrapalhar a Lava-Jato. 

A operação rendeu duras críticas do então presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), que afirmou que um “juizeco de primeira instância” não pode “atentar contra um poder”. Depois, os autos foram encaminhados para o STF.

Outra operação sob o comando de Vallisney é a Greenfield, deflagrada em setembro de 2016, para apurar crimes contra fundos de pensão.

Em janeiro, o magistrado autorizou a operação “Cui Bono?”, para investigar fraudes na Caixa Econômica Federal. Na última semana, ele homogolou a delação premiada do empresário Alexandre Margotto, também focada em desvios no banco.

Juiz há 24 anos, Vallisney é doutor em Direito processual civil. Professor da Universidade de Brasília (UnB), tem cinco livros de processo cívil e penal publicados.

JUIZ MANTÉM BLOG DE POESIA
O juiz, no entanto, não vive só de querelas jurídicas. Nas horas vagas, Vallisney lê Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e escreve poemas líricos. Alguns dos poemas estão publicados no blog "Vallisney Oliveira", que mantém na internet.

Num dos poemas, intitulado Geringonças, o juiz fala sobre a dificuldade de lidar com as palavras. "O que tenho em mim são geringonças/ soltas na mente, às vezes alquebradas/ às vezes derramado o óleo da preguiça/que enguiça e atiça,/às vezes molhada /de inspiração, por vezes esfarrapadas,/esparadrapos, ferramentas, esganadas /pela inércia da razão, do que pressinto,/são palavras ocas soltas sem o encaixe",

Num outro, Sino, ele recupera memórias antigas : "O sino bate, blem, blem,/volvo a eras longevas,/quando eu subia a ladeira/e acima da matriz/voavam fogos de artifício; agora de novo o sino,/blem, blem,/a feira, as freiras, os sermões,/o coro de fiéis comportados/e eu era levado pela emoção/da entoação do sino, blem, blem".

— De vez em quando eu escrevo, a poesia eleva a alma — explica.

Mas, ciente dos riscos de se aventurar no sinuoso terreno das artes, Vallisney diz que apenas tenta escrever poemas, mas sem maiores pretensões. Seria uma atividade mais ligada à vida acadêmica e a relação que mantém com os alunos que com o ofício do juiz, que quase sempre exige contenção e distanciamento de dilemas subjetivos.

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