quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A mídia precisa fazer algo além de comparações com Hitler
SensoIncomum

A ojeriza da mídia a Donald Trump é consabida no globo. Mas há realmente algo a criticar, ou só vão compará-lo bocejosamente a Adolf Hitler?

“Saudade da velha direita” – Eis a chamada de capa da revista Exame de 23 de novembro de 2016, que ora tem sido muito compartilhada por críticos às últimas medidas do novo presidente dos EUA, Donald Trump. A capa traz uma foto de Trump, e o retrata como um inimigo da “globalização”, da “liberdade” e do “respeito às individualidades”.
A postura da Exame ilustra um dos truques mais velhos utilizados pela esquerda para posar de moderada e tolerante com a divergência política: afetar respeito por nomes de direita do passado e compará-los com os da direita atual, a fim de sugerir sua decadência. É somente quando já não está no poder que a “velha” direita passa a ser estrategicamente tolerada pela mesma esquerda que antes a difamava, tanto quanto, hoje, difama a “nova” direita.

Há alguns anos, o ultra-esquerdista Paulo Nogueira, criador do blog Diário do C. do Mundo, e outrora diretor de redação da própria Exame, recorreu ao truque. Em artigo intitulado “A direita órfã”, o sujeito adotou um ar de equilíbrio e moderação. Crendo-se em condições intelectuais de avaliar a qualidade da direita, passou a tecer comentários condescendentes sobre as idéias de Roberto Campos e Mário Henrique Simonsen.

A pose não durou muito e o objetivo real do artigo não tardou a se revelar: atacar a direita contemporânea, que à época Nogueira acreditava estar em maus lençóis. Tratava-se de elogiar Campos e Simonsen para, por contraste, melhor achincalhar (e ignorar) os atuais intelectuais conservadores. Como se aqueles dois intelectuais não houvessem sido tão desprezados pela esquerda do passado quanto hoje o são os novos conservadores e liberais. E como se, fossem ainda vivos, não estivessem neste exato momento sendo caluniados das maneiras as mais torpes pelos mesmos Paulos Nogueiras que ora fingem avaliá-los com desapaixonada isenção.

O truque é aplicado em escala global, e tem-no sido reiteradamente na vasta campanha anti-Trump movida pela esquerda mundial, como exemplifica a capa da Exame.

Quem não se lembra de como a esquerda tratava o George W. Bush quando ele presidia os EUA? Era batata: a cada meia-hora, algum órgão da imprensa mundial, algum intelectual progressista ou político do partido Democrata comparava-o a Hitler. A Guerra do Iraque era invariavelmente descrita como o novo Holocausto. Nos meios progressistas, Bush filho era descrito como ignorante, caipira, tosco, violento e insensível – a própria encarnação de Satanás.

Pois bem. Agora que Bush já não está no poder, a esquerda já começa a reavaliá-lo (ver, sobre isso, artigo de Kyle Smith publicado no New York Post). Não, é claro, por uma questão de justiça e honestidade intelectual, ou por haver, de fato, mudado de opinião sobre o homem. Não. A reavaliação é totalmente oportunista e utilitária. Trata-se agora de usar Bush como termo de comparação com Trump, para que este possa ser atacado com mais legitimidade.

Por meio do truque, a esquerda está querendo dizer: “Veja, nós não nutrimos um ódio visceral por todo presidente que não seja de esquerda. Nós somos moderados e justos. Estamos até elogiando o Bush, viu? Nosso problema é com o Trump, esse fascista, nazista, filhote de Hitler…”

Ocorre que ser comparado a Hitler pela esquerda mundial não é privilégio do Trump. Como dissemos, Bush também o foi… E Reagan. E Nixon. E Barry Goldwater (filho de pai judeu). Isso para ficarmos apenas com políticos americanos.

Todos aqueles Republicanos, e muitos outros, foram em algum momento equiparados ao fürher. Mais tarde, também viriam a ser reavaliados pela esquerda para fins políticos. Como bem explicou Daniel Greenfield em artigo para a FrontPage Magazine:

“Goldwater foi Hitler. Nixon foi Hitler. Reagan foi Hitler. Bush foi Hitler. Nenhum destes últimos declarou o Quarto Reich, proclamou-se ditador vitalício ou criou campos de concentração. Mas a Grande Mentira reescreve retroativamente o passado ao alegar que o Hitler da última década era decente e moderado, enquanto que o atual Hitler republicano é um monstro terrível”.

Não se iludam. A esquerda quer nos fazer crer que há algo de intrinsecamente Hitler em Trump, e que o seu problema não é o de ser conservador, mas o de ser fascista, racista, xenófobo etc. Falso. Fosse qualquer outro presidente não-esquerdista, e a esquerda o estaria igualmente chamando de fascista, racista, xenófobo etc.

A esquerda não tem nada em particular contra o Trump, e seus protestos são tudo menos desinteressados. A esquerda – que, ao contrário da direita, é de fato um movimento unificado em nível mundial, ao menos no domínio da ação prática – simplesmente não aceita estar fora do poder. Ela não tem grandes interesses pelos imigrantes, pelas mulheres, pelos gays, pelos negros ou por qualquer outra “causa” pretensamente humanitária e de valor universal. Estes são apenas pretextos que ela usa para destruir todo aquele com ousadia suficiente para desacatá-la. Hoje é o Trump, e amanhã será outro, como foi outro no passado. É assim nos EUA, na Europa, no Brasil ou em Marte.

Portanto, não. Os responsáveis pela capa da revista Exame não estão realmente com saudade da “velha direita”. Duvido que saibam sequer defini-la. Estão simplesmente lançando mão de um velho truque político. Querem que acreditemos que, caso fosse uma outra direita a ocupar o poder (uma “direita” permitida), eles então a respeitariam. Nada mais falso. Está cada vez mais claro que não respeitarão nada nem ninguém que não subscreva integralmente os ítens da homogênea e unificada agenda da esquerda globalista, que tem hoje nos grande veículos de imprensa os seus dóceis e fiéis porta-vozes.

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